A Rota Comercial – Tropeirismo

A Rota Comercial – Tropeirismo

Foto: Infografia – Gazeta do Povo

 

Por Carlos Solera**

 

A demanda e oferta da mercadoria animal cresciam e era preciso organizar o seu comércio. Assim como já acontecera na região argentina de Salta nos anos 1.600, na então vila de Sorocaba surgiu por volta de 1.750 uma grande Feira de Animais, que passaria a atrair compradores e vendedores de animais, das diversas regiões do Brasil. Ela teria a duração de quase um século e meio de existência e nós, com certeza, poderemos classifica-la como matriz do segmento turístico de eventos, tal população de visitantes que atraia e atividades que ali ocorriam, durante sua realização.  

 É que Sorocaba, nos cerca de cem dias que durava a Feira, aproximadamente de abril a julho, se transformava na capital dos negócios do Brasil, pois em nenhum outro lugar do país havia a presença conjunta de tantos clientes endinheirados. Chegou em determinados momentos a ter cerca de 160 hospedarias para receber visitantes e comerciantes, o que também pode ser considerado os primórdios da industria hoteleira e gastronômica no Brasil. Havia exibições de companhias de teatro, opera e circo, mascates, lojas de câmbio, vendedores de jóias, artesanatos e embutidos, oficiais seleiros, ferreiros, domadores e outro mais das lides campeiras. Ainda a presença de médicos, dentistas e charlatões com suas receitas para saúde. Aparelhos chamados de Panorama e Cosmorama, que podem ser considerados os precursores dos cinemas, foram ali apresentados pela primeira vez no país. Logicamente ocorria também uma grande afluência das “damas do sexo” …!

 Como muitos viajavam para lá apenas para ver a Feira acontecer, ou curtir, como se diz hoje, podemos imaginar que os primeiros agentes de viagem do Brasil, agências emissivas e receptivas fizeram ali também, nessa Feira, o seu batismo no cenário turístico nacional.

 Os resultados econômicos da Feira eram fabulosos e muitas das grandes fortunas brasileiras se fizeram ali. Os animais eram vendidos e distribuídos a seguir, para todo Sudeste e em especial, para Minas Gerais, como também ao Nordeste e Centro-oeste do Brasil.

 Posteriormente, o Caminho das Tropas migrou mais para oeste, na região gaúcha, catarinense e paranaense, buscando se aproveitar das manadas de animais que ficaram na região missioneira do Rio Grande do Sul após a expulsão dos padres jesuítas. Independente de seu trajeto, o Caminho das Tropas vindo do sul, se somou à Estrada Real que se dirigia ao Sudeste brasileiro e a Estrada do Sertão que ia para o Mato Grosso e Goiás.

 Em todo esse trajeto, nos milhares de quilômetros de um Brasil desconhecido, uma figura maiúscula e até bem pouco tempo praticamente desconhecida de nossas gerações, estabeleceu qual um cordão de pérolas, um imenso corredor cultural, social, econômico e humanístico, em nosso país. O TROPEIRO !

 Foi ele o homem transformador de idéias e desenvolvimentista, criador de incalculável quantidade de cidades que nasceram a partir do pouso de suas tropas, integrador da lingüística nacional, elemento de difusão da gastronomia, da religiosidade, do espírito de associativismo, da medicina campeira, de atividades esportivas, das músicas e danças, hábitos e costumes regionais, correio ambulante, entre outras tantas virtudes.

 Porém nada melhor do que um antigo ditado popular, para simbolizar essa histórica figura humana do Tropeiro – “não preciso de documento algum para afiançar a minha palavra; basta-me um fio do bigode como compromisso de honra” …!!



Aguarde a continuação dessa história com um texto sobre o crescimento da tropa de muares em torno da rota tropeira.



 Fonte
CARLOS ROBERTO SOLERA
Presidente do Núcleo de Amigos da Terra e Água – NATA
Idealizador e Coordenador Geral do Projeto Tropeiro Brasil
Pesquisador sobre a História do Tropeirismo e Formação do Povo Brasileiro
Autor dos livros: Histórias e Bruacas e O Alvorecer do Purunã
 
41 3243 0908  41 9226 5170     

 

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