Clarice e os Cavalos

Clarice e os Cavalos

A presença dos cavalos na obra de Clarice Lispector

Por Vanessa Omena*

“É que eu também sou bicho. ”

(Clarice Lispector, em entrevista ao Museu da Imagem e do Som)

Abro este relato como se estivesse mesmo cavalgando em meio às obras da escritora Clarice Lispector (1920-1977), povoada de seres animais – não humanos – que interage metaforicamente, nas reflexões, sensações, diálogos e por meio do simbolismo com grande parte de seus personagens.  A própria Clarice era afeiçoada a animais entre esses os cachorros, coelhos, cavalos, galinhas… e que eram transportados  para seus romances ou em obras mais curtas como as crônicas, contos, muitas vezes para refletir sobre a prisão da relações humanas, a vontade de libertar-se.

Cavalos Livres em “Perto do Coração Selvagem”

 Em seu romance de estreia “Perto do Coração Selvagem” (1944) a protagonista Joana, em suas reflexões sobre a liberdade, evocava a imagem dos cavalos em espaços de campinas livres e verdes:

“E então cavalos brancos e nervosos com movimentos rebeldes de pescoço e pernas, quase voando, atravessassem rios, montanhas, vales…”

A narrativa intimista, de potência introspectiva e de sentimentalidade fez de Clarice uma das escritoras mais analisadas pelo conjunto de sua obra pelos mais diversos pontos de vista. Em “Perto do Coração Selvagem” a protagonista, ao final do romance, se refere mais uma vez aos cavalos como forma de mostrar a imagem de sua liberdade feminina, em estado equestre:

“ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo”.

Um pouco sobre Clarice Lispector

De origem judia, Clarice Lispector nasceu em Tchetchelnik, Ucrânia, e veio para o Brasil ainda bebê (mais propriamente com um ano e dois meses de idade) com os pais fugindo da perseguição aos judeus. Seus pais se estabeleceram primeiro em Maceió e depois em Recife, e finalmente o Rio de Janeiro. De lá, Clarice viajou o mundo acompanhando o marido embaixador, até se estabelecer definitivamente no Rio.

Cavalos evocando liberdade – Presença marcante na obra de Clarice

No romance “A Cidade Sitiada” (1969) os cavalos voltam a povoar os sonhos de liberdade de um dos personagens, desta vez Lucrécia Neves, em conflito entre a vida simples do campo e a grande metrópole.  No afã de se libertar da ‘domesticação social’ Lucrécia Neves era acometida por imagens de animais em lancinante liberdade:

 “Mas à noite cavalos liberados das cargas e conduzidos à ervagem galopavam

finos e soltos no escuro. Potros, rocins, alazões, longas éguas, cascos duros –

uma cabeça fria e escura de cavalo – os cascos batendo, focinhos

espumantes erguendo-se para o ar em ira e murmúrio”.

E neste mesmo sonho culmina na metamorfose de Lucrécia em Pégasus, o cavalo com asas da mitologia grega, que vagueia “na escuridão sobre a cidade”.

No romance “Água Viva” (1973) os cavalos passam pela reflexão da voz narrativa. É cantada sua relação afetiva com o cavalo branco, “rei da natureza”.

No ano de 1971, publica (em série) duas crônicas intituladas “Bichos”, que saem no jornal no mês de março. Essas narrativas organizam, numa forma que tende ao enciclopedismo, os vários bichos com que Clarice conviveu, seja na vida real, seja na imaginação.

A sexualidade feminina e a figura lírica do cavalo

Em “Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres”, (1969), considerado dos romances mais belos e profundos sobre o amor entre um homem e uma mulher como iniciação, escreveu Clarice:

“Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse a casa dele, e é. Trata-se de um cavalo preto e lustroso que apesar de inteiramente selvagem – pois nunca morou antes em ninguém nem jamais lhe puseram rédeas nem sela – apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão.

E assim, descreve:

“O seu focinho é úmido e fresco. Eu beijo o seu focinho. Quando eu morrer, o cavalo preto ficará sem casa e vai sofrer muito. A menos que ele escolha outra casa e que esta casa não tenha medo daquilo que é ao mesmo tempo selvagem e suave. Aviso que o cavalo não tem nome. Basta chama-lo e acerta-se logo com o nome. Ou não se acerta, mas uma vez chamado com doçura e autoridade, ele vai. Se ele fareja e sente que um corpo-casa é livre, ele trota sem ruídos e vai. Aviso também que não se deve temer o seu relinchar: as pessoas enganam-se e pensam que são elas mesmas que estão a relinchar de prazer ou de cólera, as pessoas assustam-se com o excesso de doçura do que é isto pela primeira vez.”

No Romance “A Hora da Estrela” (1977), a personagem principal Macabéa, uma alagoana que foge da seca para viver na cidade grande, sofre as dores de sua adaptação ao novo mundo. Em certo ponto, diz o narrador:

“Por Deus! eu me dou melhor com os bichos do que com gente. Quando vejo

o meu cavalo livre e solto no prado – tenho vontade de encostar meu rosto

no seu vigoroso e aveludado pescoço e contar-lhe a minha vida. E quando

acaricio a cabeça de meu cão – sei que ele não exige que eu faça sentido ou

me explique.”

Em “Um sopro de vida (1978), publicado um ano após a morte de Clarice Lispector, pela amiga Olga Borelli, o cavalo é representado de forma artística pela personagem Ângela – que é pintora –   “com longa e vasta cabeleira loura no meio de estalactites de uma gruta”. Mais uma vez o animal se insere num campo de liberdade artística, desta vez por meio da pintura. O livro em questão traz uma epígrafe de Clarice:

 “Não quero ser somente eu mesma. Quero também ser o que não sou.”

(Clarice Lispector)


Referências:

 A hora dos animais no romance de Clarice Lispector, de André Leão Moreira (Faculdade de Letras da UFMG)

 http://claricelispectorims.com.br

 

 

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Vanessa Omena
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