Cocheira – Um Mal Geralmente Desnecessário

Cocheira – Um Mal Geralmente Desnecessário

Foto: Jacira Omena

 

 

Por Sérgio Lima Beck*

 

Dentro do tema Bem-Estar Equino, procuraremos tratar aqui assuntos pouco abordados, bem como trazer questionamentos e idéias novas. Desta feita discutiremos a necessidade e os malefícios das cocheiras.   

 De fato, a cocheira é um mal geralmente desnecessário, principalmente para nós que vivemos num país, na sua maior parte, tropical.  Primeiro vamos ver porque a cocheira é um mal. Depois veremos quando ela é necessária e como os malefícios podem ser minimizados. Por último veremos qual seria uma boa alternativa. 

Malefícios 

Cocheira é um mal por vários motivos. O cavalo, ou melhor, o equino é um animal essencialmente de movimentos. A trabalho ou até mesmo apenas pastando em liberdade ele está quase todo tempo se deslocando. Parado mesmo ele só fica umas quatro ou cinco horas por dia para descansar e dormir . Mesmo assim de forma não contínua nessas quatro ou cinco horas. Esta é uma das suas estratégias de sobrevivência. Como animal presa ele procura não ficar parado muito tempo no mesmo lugar, para não ser encontrado facilmente pelos predadores.

 Por outro lado, quando um equino está contente ele gosta de dar umas arrancadas, uns pulos, umas corridas e até umas esbarradas. Isso faz parte do seu comportamento natural. Ele precisa se exercitar para estar condicionado fisicamente no caso de um eventual e súbito ataque de predador. Muitas pessoas poderiam argumentar dizendo que hoje, na maioria dos locais, não há mais predadores.  É verdade, mas este argumento não vale, porque o cavalo precavidamente não acredita nisso, por mais que você tente dizer isso para ele. A precaução e a autopreservação estão gravadas geneticamente no seu sistema nervoso. A evolução biológica caminha a passos lentos e cinco ou seis mil anos de domesticidade significa muito pouco tempo na história evolutiva da espécie equina. É quase como um pingo de água no oceano do tempo. O comportamento de desconfiar do desconhecido, de evitar a potencial ameaça e de estar preparado para se afastar rapidamente de perigos é um instinto que ainda vai perdurar por milhares de anos.  Por aí se pode ver que a privação de deslocamentos que o encocheiramento demorado impõe é um mal, embora às vezes necessário. Dentro da cocheira fechada esse instinto de sobrevivência fica bloqueado e o equino frustrado.  A curto prazo o confinamento na cocheira pode ser a causa de excessivas excitações  e de nervosismo. A médio prazo a ociosidade e o tédio do encocheiramento por muitas horas seguidas geralmente são a causa de mau humor e de vícios de comportamento como engolir ar (aerofagia), tique de urso, etc. A longo prazo um sedentarismo obrigatório, decorrente da imposição de ficar trancafiado várias horas por dia numa concheira, representa para o equino quase uma sentença de morte anunciada. 

    Outro malefício que a cocheira impõe é, geralmente, a privação de contato com seus amigos ou semelhantes. O equino é um animal de grupo, um animal gregário. Estar sozinho numa cocheira significa uma privação social terrível. Imaginemos nós humanos sermos obrigados a ficar trancados num quarto bem pequeno por doze ou mais horas todos os dias. Sem televisão, sem música, sem algo para ler, sem amigos para conversar, sem telefone, enfim sem nada para nos entretermos ou nos ocuparmos.. Com certeza esta é uma condição deveras ruim. Tédio, ansiedade, tristeza, depressão, mau humor são algumas das consequências da tripla conjugação de solidão com ociosidade e falta de espaço. Uma das piores punições a um ser humano que já está na cadeia é ser enviado para a solitária por um ou mais dias. Nada a fazer, isolamento e mínimo de espaço. Quase o pior dos mundos. Para um cavalo o longo encocheiramento diário é uma punição, um castigo, maior do que a solitária para o presidiário. Façam essa comparação. E são muitos os cavalos mantidos 24 horas por dia numa cocheira, sem terem cometido crime algum. Sob este ponto de vista cocheira, por muitas horas seguidas, é uma enorme e injusta punição para os cavalos. Sei que a intenção das pessoas não é esta quando colocam seus animais para dormir em cocheiras, mas vejam as coisas também do ponto de vista dos cavalos. Considerem as necessidades físicas e comportamentais deles, as quais não são iguais as nossas. Numa boa hipótese os colocam na cocheira às seis horas da tarde e os retiram pelas 7 horas da manhã do outro dia. Vejam que normalmente são aproximadamente 13 horas seguidas de encocheiramento. Descontando 4 horas entre comer e dormir, sobram 9 horas de inatividade, de falta de espaço, de entediante ociosidade, de solidão, de angustia e de falta de bem-estar. 

    Vejamos outra privação que a cocheira impõe. Por melhor que seja uma cocheira individual, ela está longe de ser o ideal. Como animal de grupo, sempre que os equinos vão dormir um deles, em revezamento, permanece acordado com a função de dar sinais de alerta se alguma ameaça aparecer.  Mas numa cocheira individual o equino não pode contar com a sentinela do companheiro perto. Daí que seu sono não deve ser tão profundo nem reparador. Ele se sente mais vulnerável quando está dormindo sozinho e assim não descansa como deveria. 

    Mais um fator negativo da cocheira. Não é da natureza do cavalo se alimentar nem deitar perto das suas próprias fezes e urinas. Para que assim não seja numa cocheira precisaríamos limpá-la várias vezes por dia. Sabem quantas pessoas fazem limpeza da mesma cocheira várias vezes por dia enquanto o animal está encocheirado? Acho que não preciso nem responder. Além disso, cama suja é ruim para saúde do casco, da pele e do sistema respiratório do cavalo. 

    Somando tudo isso fica fácil entender porque o encocheiramento por muitas horas seguidas é um mal para o cavalo. Pode até, em determinadas circunstâncias, ser um mal menor, mas sempre será um mal se compararmos com a condição natural e ideal. 

    Quando a cocheira é um mal menor ou necessário? 

    Ao falarmos de mal que às vezes é necessário, primeiro gostaria de dizer que a ideia de cocheira tem muito de “colonização” dos países que nos deram origem. Geralmente países de clima bem mais frio do que o nosso. Inadvertidamente os colonizadores, sem levar em conta as grandes diferenças do nosso clima em relação ao da terra natal deles, aqui também repetiram o costume de construírem cocheiras. Por outro lado, tendemos a copiar quase tudo que se faz nos países desenvolvidos de clima frio e cocheira foi uma dessas coisas. Aliás, esse costume já não se justificava nem para nossos ancestrais portugueses. O clima em Portugal, assim como na maior parte da Península Ibérica, não exige cocheiras. Mas eles tinham e têm, como nós, a tendência de querer copiar o que se faz nos outros países mais desenvolvidos e frios como França, Inglaterra, etc. Esse erro atinge não só nossa iniciativa privada como também as poucas iniciativas públicas ou governamentais nesse sentido.   

    No Brasil a cocheira normalmente é um conforto mais para o homem do que para o cavalo. Como? Estando o animal encocheirado se torna muito mais fácil para o homem acessar o cavalo que fica ali, sem poder se afastar, pronto e ao seu dispor. 

    Mas afinal quando então a cocheira pode representar algum benefício ou um mal menor para o cavalo?

 Em várias situações, dentre as quais citarei abaixo algumas:

  – Quando, por exemplo, um animal acometido de algum problema de saúde precisa, por tratamento, de privação de movimentos e de abrigo contra as intempéries. 

– Quando, mesmo para um só animal, não dispomos de campos ou piquetes para deixá-lo solto. Nesse caso a cocheira passa a ser um mal menor do que soltar o cavalo nas ruas ou nas estradas e até mesmo melhor do que vendê-lo para pessoas que não são garantias de que irão tratá-lo bem.   

 – Quando só possuímos pastos ou piquetes que ficam na beira de ruas ou estradas. À noite “todo gato é pardo” e então em certas regiões é preciso recolher o cavalo numa cocheira para evitar possíveis roubos.

 – Quando os pastos ou piquetes não são em numero ou tamanho suficiente para que animais antagônicos ou fortemente antipatizados não fiquem a brigar seguidamente na mesma área.

 – Quando em áreas urbanas de metrópoles é preciso manter grande número de cavalos para policiamento, para hipismo, para exposições, etc. A concentração e a falta de espaço impõe cocheiras como local para se manter cavalos.

 – Quando fora da cocheira a temperatura estiver abaixo de zero graus célsius e junto correr chuva prolongada. Todavia, geralmente, as pessoas tendem a transpor para o cavalo a nossa sensibilidade e resistência ao frio e à chuva. Mas esse é outro equívoco porque o cavalo, quando bem alimentado, suporta muito mais do que nós as chuvas e as baixas temperaturas. Salvo condições extremas, uma equilibrada e farta alimentação vale mais do que muitas cocheiras.

Como minimizar os malefícios do encocheiramento?

Retirando o cavalo da cocheira várias horas, todos os dias, a fim de que ele possa se movimentar e relaxar.

– Equipando a cocheira com entretenimentos como bolas penduradas e espelhos altos na parede onde o cavalo pode se ver sem tocar na sua própria imagem.

– Permitindo ao cavalo na cocheira acesso permanente a volumoso e água limpa.

– Cocheiras devem ter, pelo menos, as divisórias internas com paredes de meia altura, isto é, com paredes só até a altura do peito ou da cernelha. Daí para cima a divisão fica livre ou com grades que permitem a visualização, o tato e a olfatação entre os vizinhos.

– A cocheira deve ser a mais ampla possível, de forma a permitir que o animal estrume e urine só em determinado local e não fique, por falta de suficiente espaço, a pisotear sobre a sua própria sujeira. A maioria dos cavalos têm esse cuidado ou comportamento de higiene quando lhes é oferecido espaço suficiente e adequado. Bom tamanho gira em torno de 25 m² ou mais. Além de tudo, cocheiras grandes se tornam mais econômicas porque, permitindo ao cavalo adotar comportamento de higiene, exigem menos trabalho de limpeza e gastam menos material de cama.

– Na cocheira o cocho de ração concentrada e o suporte de feno e/ou de capim cortado devem ter altura baixa, de forma a permitir que o animal possa se alimentar com o pescoço para baixo, como é mais natural e apropriado para a sua fisiologia digestiva.

– A cocheira, na medida do possível, deve ser bem ampla, arejada e recebe sol algumas horas por dia.

– A cocheira deve ser limpa sempre que estiver suja e não só uma única vez por dia.

  Alternativa – Qual seria uma boa alternativa para a cocheira?

Modernamente nos países de clima frio, mesmo onde constroem muitas cocheiras lado a lado, hoje há uma tendência de construírem  cada uma com uma pequena área anexa individual, de livre acesso, que funciona como solário e local para o animal relaxar um pouco do confinamento maior. Já é bem melhor do que as limitadas cocheiras tradicionais. Mas o ideal mesmo seria não precisarmos das cocheiras. Caso sejam necessárias então uma boa alternativa seria substituí-las por abrigos, de livre acesso nos pastos e piquetes, onde os cochos, com divisórias de individualização, e os animais estivessem protegidos das intempéries mais drásticas como vento excessivamente frio, prolongada chuva intensa e sol muito forte.  

  Conclusão

  Na Suíça, um dos países onde os princípios do Bem-Estar Animal são levados a sério, a ninguém é permitido ter cavalo sem que ele disponha de companheiro da mesma espécie e o encocheiramento por 24 horas seguidas é rigorosamente proibido.  

    A cocheira pode e deve ser entendida como a ferradura, um mal às vezes necessário. Mas devemos evitá-las sempre que possível. E na maioria das vezes é possível evitar o encocheiramento prolongado.

Pensem nisso!


Sérgio Beck*

*O autor é cavaleiro profissional e instrutor de Doma e Equitação. É também autor, entre outros livros e DVDs, do Manual de Gerenciamento Equestre.

Contatos: [email protected] , (41) 9953-0317 Tim e (48) 9162-7185 Tim.

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Sobre o Autor

*O conteúdo dessa matéria é de inteira responsabilidade do seu autor, não tendo a Viajar a Cavalo qualquer responsabilidade sobre o teor dessas informações.

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