Final de semana entre orelhas e com a cara no chão

Minha última queda do cavalo

Por Jacira Omena*

 

Sim! Difícil falar sobre isso!

Mexe com os brios e faz me lembrar de onde veio as dores físicas que ainda sinto.

Mas, é fato, cai do cavalo!

Fazia um tempo que isso não acontecia, e não posso reclamar do meu Panga!

Culpa nenhuma ele tem por minha inépcia, falta de cuidado e uma boa dose de auto superestimação.

Conto aqui sobre a queda que levei do meu cavalo no último sábado.

Por vários outros motivos além de estar sempre entre uma viagem e outra, estou sem montar no meu Panga há uns quatro meses e meio. Porém, sempre peço ao pessoal que lida com o gado da fazenda do meu irmão para montar nele vez ou outra. Coisa que acho que não está acontecendo.

Pois então! Cheguei no último sábado toda animada para cavalgar com ele. E fiquei muito feliz em vê-lo tão lindo e bem tratado. Mais feliz ainda em perceber que o tempo que ficamos afastados não o fez me esquecer. Ao encontrá-lo fiz o mesmo ritual de aproximação – Falei baixinho, estendi a mão – e ele respondeu: aproximou-se, cheirou, chegou mais perto, roçou a cabeça no meu braço e brincou com meus cabelos.

Talvez a alegria desse feliz reencontro tenha entorpecido o meu raciocínio e feito com que eu tivesse cometido dois erros que se mostraram fatais, e que contribuíram para a minha queda: Ter arreado o Panga da mesma forma que a 4 meses atrás e não ter prestado atenção em alguns detalhes da minha sela.

Explico!

Havia tirado o ferro da boca do meu Panga e ele estava respondendo muito bem. E como estava cavalgando com muita frequência, ele não estava com tanto gás para galopar e correr.

Diferentemente de quatro meses passados sem quase nenhuma atividade e muita disposição. No sábado passado mantive a cabeçada apenas com a focinheira e sem ferros.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Que detalhes na minha sela não prestei atenção?

O estribo de segurança com sistema de alavanca que estava colocado no loro do lado contrário. Portanto, a alça com alavanca funcionava ao forçar para frente em vez de para trás no caso de queda.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Nada disso me passou pela cabeça ou foi notado quando montei no meu Panga e saí num galope desde o princípio.

Sim! Percebi que ele estava com fome nas patas!

Mas longe de me preocupar, senti prazer em participar da libertação de sua energia.

Tudo ia bem. Entrei em um cercado e saí em um outro onde estavam alguns trabalhadores fazendo um serviço de destoca. E foi aí que começou tudo! Alguns cachorros começaram a latir para o meu cavalo que se assustou e começou a querer correr. Quando eu fiz força nos estribos como apoio para puxar a rédea, um deles destravou a parte de baixo, e ela começou a bater na barriga do cavalo. Foi combustível para o fogo já ateado. Ele disparou! A focinheira que há quatro meses atrás era suficiente para pará-lo, efeito nenhum fazia. O Panga pegou a estrada na saia do morro onde estávamos em disparada.

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Foto: Jacira Omena

 Corria, corria, corria muito!

Sabia que no final da estrada havia uma cerca, e pensei em conseguir pará-lo aí. Quase consegui. No momento que se aproximou da cerca, diminuiu a velocidade, aproveitei para fazer mais força ao puxar a rédea para trás e para o lado, forçando o pescoço. Mas aí, aconteceu o que não poderia mais acontecer, ao apoiar no único estribo que me restava, ele abriu também. E como no início, a parte de baixo bateu na barriga do Panga, que mudou a sua rota de fuga para morro abaixo, pelo meio do pasto. Nada que eu fazia arrefecia a sua necessidade de correr. A minha frente, uma outra cerca e algumas goiabeiras.  Foi quando tive medo de morrer!

Falei alto para mim mesma – Agora vou morrer!

E nessa hora decidi fazer uma coisa que nunca havia feito, nem aprendi a fazer – Me jogar do cavalo.

Em questão de segundos, decidi!

Escolhi cair num lugar sabido do que ser atirada em outros bem piores, como em cima da cerca, ou ser arrancada pelos galhos das árvores.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Os pés já estavam soltos, coloquei o corpo para o lado e me deixei cair para longe do cavalo. Senti o primeiro impacto sobre o meu ombro esquerdo, logo na costela e quadril. Com a velocidade rolei até enfiar a cara no chão e parar.

O Panga se foi!

Atordoada, senti todo o corpo, avaliei os estragos e me pus sobre os pés.

Chapéu para um lado, óculos escuros para o outro. Recolhi os objetos e o meu orgulho do chão.

Estava mais assustada de que com dor. Mas, logo isso se inverteu.

Caminhei ladeira a baixo na direção da sede da fazenda do meu irmão onde estava o meu Panga. Não senti raiva, só mais respeito.

Ainda naquele dia, mesmo com dor e depois de colocar um freio bridão e outro estribo, fui galopar com o meu Panga. Divinamente!

Quatro dias depois, continuo com dor e torta.

Não sei quando voltarei a cavalgar com o meu Panga.

 

 

 

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Sobre o Autor

Jacira Omena
Jacira Omena 199 posts

Viajante e Escritora - Escreveu o Livro - Viajar a Cavalo:Um Guia Passo a Passo. "Viajo pelo mundo a cavalo sempre a procura de algo novo e surpreendente, e com grande frequência sou bem-sucedida nessa busca!

*O conteúdo dessa matéria é de inteira responsabilidade do seu autor, não tendo a Viajar a Cavalo qualquer responsabilidade sobre o teor dessas informações.

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3 Comentários

  1. Gaby Firmo
    junho 23, 02:35 Reply
    Moça, a aventura toda foi muito boa, mas o final desagradou. Não sei se pela dor ou pelo susto, mas porque não irá voltar a montar no seu Panga? Sei como é difícil e já passei um apuro muito grande também! Meu cavalo saiu do cabresto assustado pinoteando, eu estava do lado, segurando a corda. E ela prendeu na minha mão. Imagina, foram só três segundos ali presa para sentir que eu ia morrer. Fiquei com a mão rasgada, falanges sem pele. E ele fugiu pro pasto, com sela e tudo. Tivemos que ir pegar e depois de um bom exercício no redondel, montei nele. Demorei tempo para voltar a andar a cavalo e me arrependo! Não deixa isso afetar a sua relação com o Panga, como você mesmo disse, sentiu respeito. Mas ele deve te respeitar também! E não falo de chicotes, esporas ou pancadas, essas coisas se conquista com exercício. Então mais do que nunca, monte nele agora, o tempo todo. O Panga te conhece e pode te conhecer melhor, assim como você a ele. Meu cavalo também faz birra, mas todo dia que eu monto nele é um dia que eu venci, mesmo depois das empinadinhas dele. Seja pela dor em seu corpo, que eu sei que é forte, ou em seu coração, o susto deixa uma lição. Abraços para você e para o Panga, sejam felizes! Adoro seus artigos. :)
  2. Hugo
    junho 23, 17:21 Reply
    Artigo muito interessante e bem escrito. Melhores do que diversos livros de ficção e aventura. Apesar da desastrosa história, fico contente que no final os danos não foram grandes e serviram como mais um aprendizado na experiência de cavalgar. Quem sabe será base para um capítulo de um eventual vol 2 do Viajar a Cavalo! Rs
    • Jacira Omena
      junho 23, 17:25 Reply
      Sim!! De lá para cá, muitas histórias para contar!

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