Equador- Terra dos Chagras

Equador- Terra dos Chagras

 Foto: MLinke

 

Por Jacira Omena

 

Equador – Janeiro de  2014

 

– Há uns dois anos o Equador apareceu no meu radar como um possível destino de viagem a cavalo. Recebi um link de um roteiro operado por uma inglesa através de uma amiga de outras cavalgadas. A princípio, quando ela mencionou Equador, tive uma reação de surpresa, que logo se esvaiu a partir da visão do cenário apresentado pelas fotos e a descrição do itinerário. De imediato, entrei em páginas de internet, consultei mapas, guias e outras operadoras de viagens a cavalo. Ao mesmo tempo, entrei em contato com a operadora que minha amiga tinha enviado o link para saber mais detalhes e datas prováveis de saída nos meses que eu tinha disponível no futuro próximo.

Após esse primeiro contato, não foi possível conciliar datas e, logo depois a comunicação sofreu alguns equívocos de informações o que gerou uma má impressão da minha parte. A partir daí, comecei a buscar outras possibilidades, já que o Equador não saía mais da minha cabeça. 

–  Viajei para outros lugares, e não deixei de a cada oportunidade que tinha na internet durante a pesquisa de alguns assuntos, verificar a existência de operadores locais no Equador. 

–  Abro um parêntese aqui para esclarecer que operadores locais sempre terão a minha preferência na hora de escolher a forma que vou contratar uma viagem. Mesmo que, operadoras internacionais ofereçam um serviço muito bom, garantias e segurança na hora de contratar um programa de viagem, ainda continuo preferindo o contato direto e, o tratamento individualizado que recebo quando entro em contato com o operador local. Ainda assim, recomendo para todas as pessoas a aquisição de roteiros através das operadoras nacionais ou internacionais por todos motivos citados acima, e também pela tranquilidade que oferecem, principalmente para aqueles que não têm experiências com viagens a cavalo e/ou dificuldades em comunicar-se em outras línguas. 

–  Enfim, voltando ao assunto Equador; encontrei o nome da Hacienda la Alegria em um roteiro vendido por uma operadora francesa, e a partir daí comecei a minha busca no Google. Entrei na página da internet e, através de contato por e.mail solicitei a programação de saídas e detalhamento dos roteiros. Fui muito bem atendida pelo dono, Gabriel Espinosa, e fiquei muito bem impressionada com as fotos, descrição do local, e resenhas do Tripadvisor e comentários no Facebook. Fiz uma reserva para a primeira data programada do ano, e aguardei a confirmação da formação do grupo para garantir a saída. Em novembro de 2013, tive a informação que a saída do dia 12 de janeiro estava garantida. E com isso, a minha cabeça voltou-se mais ainda para o Equador.

–  Reservei passagens aéreas e hostal em Quito. A ideia era chegar 3 dias antes do início da cavalgada para explorar a cidade e arredores e, fazer uma adaptação a altitude.

Sim, a altitude! Ela era um fator a ser levado em conta no Equador. Toda a cavalgada seria feita em altitudes superiores a 2500 metros. Em sua maior parte, acima dos 3200 metros de altitude. E, nesses níveis de altitude, uma pessoa que não está acostumada, como eu que vivo na costa, pode sentir tonturas, cansaço físico, falta de ar, dor de cabeça, e o que é mais comum é ficar um pouco lenta de raciocínio. Os três dias em Quito iriam me salvar dessa situação. Além disso, sempre acho maravilhoso conhecer um pouco mais sobre o país onde eu vou fazer o roteiro a cavalo. 

–  Bom, e foi assim que já com tudo planejado, entrei nas festas de final do ano! Enquanto isso, aprofundei um pouco meus conhecimentos sobre o país que iria visitar. 

–  Preparei equipamento fotográfico, roupas e acessórios para cavalgar, medicamentos, documentos, etc., e deixei tudo pronto para só colocar na mala no momento apropriado. Precisava checar a previsão do tempo, um pouco mais próximo, para finalizar a organização da mala. Mas, já sabia que iria encontrar temperaturas muito baixas e chuvas, que são frequentes nessa época do ano. Janeiro é baixa temporada para o turismo no Equador.

Escolher o que levar sempre é um ponto crítico em toda viagem. Em uma viagem a cavalo isso toma uma outra dimensão. Espaço e peso são desafios reais. Veja um pouco sobre isso no – capítulo 9 – O que levar – do meu livro Viajar a Cavalo: Um Guia Passo a Passo. 

–  Já com tudo pronto e organizado para a viagem, inclusive a vida deixada para trás, embarco por São Paulo, via Lima, para Quito. Apesar da conexão, com tempo muito curto entre os voos, a viagem ocorreu sem sobressaltos e, a chegada em Quito foi saldada com uma grata surpresa de um aeroporto novo em folha, com uma estrutura moderna, sem excessos, e com serviços essenciais. Pelo caminho já pude ver um pouco das características topográficas da região, do ritmo do país na questão de implementação de obras públicas de infraestrutura e, do clima. E também, do tal efeito altitude falado um pouco lá atrás. Minha cabeça estava pesada. Era tudo junto, altitude e cansaço pela longa viagem aérea. 

–  Fui calorosamente recebida no meu Hostal La Rábida na região de Mariscal. Aproveitei para pegar informações sobre a cidade, e tirei o resto do dia para descansar.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Passei três dias agradáveis em Quito, onde conheci os principais pontos turísticos da cidade, experimentei a comida típica do país e, perambulei pelas ruas do centro histórico fotografando. Muitos ambulantes pelas ruas vendendo de tudo um pouco, mas principalmente comida. Povo muito receptivo e simpático. Nesse tempo, ainda passei um dia fora da cidade, quando visitei Otavalo, onde fica o principal mercado regional, e Cotacachi, a cidade especializada em artigos de couro. 

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

–  Quando o Pablo foi me pegar para levar para a Hacienda La Alegria, eu já estava adaptada e, não via a hora de começar a “verdadeira” viagem. 

–  A Hacienda La Alegria está localizada ao sul de Quito, próximo a cidade de Machachi, capital dos Chagras. E no coração da magnífica região do Equador chamada “Avenida dos vulcões”. É uma típica fazenda dessa região e, há várias gerações na família de Gabriel Espinosa. Concilia o turismo rural e equestre com a produção orgânica de leite.

Quando me aproximei da fazenda, à medida que subia a ladeira de pedra através de uma alameda, fui aos poucos tendo a visão da sede. Uma estrutura de estábulos e currais com muros largos e um pátio cercado por uma profusão de vegetação, flores e árvores, precediam a entrada da casa sede da “Hacienda. A casa, construída há muitos anos em estilo clássico franco-italiano, ainda conserva todo o seu charme tanto externamente quanto no seu interior. Cheguei logo cedo na “Hacienda”, e os outros participantes da viagem ainda estavam na sala de café da manhã juntamente com Gabriel e Patrícia, sua esposa. Como de costume, iria viajar com pessoas completamente estranhas ao meu convívio e, mulheres. Não por escolha, mas por uma ocorrência inerente a esse tipo de atividade. Dessa vez, teria a companhia de uma equatoriana,M.,  há muito tempo vivendo no exterior, e sua amiga A.K., uma alemã que vive e trabalha na Suiça. 

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Começaríamos o dia com uma incursão na feira de sábado de Machachi. A profusão de cores trazidas pelas frutas, legumes e flores enchem os olhos, e os tachos de comidas fumegantes aguçam o apetite. Aproveito para comprar rolete de cana e, também rapadura em pedaços para garantir a energia durante a cavalgada.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

–  Imediatamente após chegar a Hacienda, pegamos os cavalos e fomos fazer um reconhecimento dos arredores. Conheço Rodrigo, auxiliar de Gabriel, que vai nos acompanhar e auxiliar por toda jornada. O meu cavalo, Cid, um mestiço de Árabe e Andaluz, é um dos que irei cavalgar nesses próximos dias. Ágil, arisco e com um trote bastante confortável. Um passeio curto com parada para um lanche de almoço, mas o suficiente para ter uma ideia da região. Esse primeiro momento, serve para adaptação ao cavalo, e para o operador, avaliar o nível de habilidade do cliente.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

A noite foi muito agradável. Jantamos na sala principal da casa, e pratos típicos da região, um bom vinho e uma conversa muito agradável deram o tom da refeição. Terminamos por degustar um conhaque que Gabriel havia trazido de sua última viagem da França. Bom, não podíamos exagerar! O próximo dia seria apenas o primeiro de muitos outros no roteiro de 260 quilômetros pelos Andes equatorianos.

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–  O primeiro dia de cavalgada foi através do vale de Machachi. Atravessamos a cidade passando pela praça onde todos os poderes, provincial, municipal, monetário e religioso, estão dispostos um de frente para o outro no velho estilo tradicional espanhol. Após passar por Machachi, tomamos o rumo das montanhas, avistamos o vulcão Ruminahui, e fomos subindo até o ponto de almoço. Uma vista linda do vale e do vulcão se espalhava em nossa frente. Era uma boa pausa para comer e os cavalos descansarem. O meu cavalo, Edgard, estava visivelmente cansado. Uma mistura de bretão com criollo. Muito boa praça, mas um pouco lerdo para o meu gosto.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Chegando ao ponto mais alto do roteiro, fizemos uma oferenda para as montanhas. Gabriel me fez enterrar parte dos meus roletes de cana. Isso porque salvei o resto do pacote e, também a minha rapadura que era o alvo inicial.

Daí, descemos pelas encostas das montanhas em direção ao Parque Nacional de Cotopaxi onde dormimos em um refúgio – Tambopaxi – aos pés do vulcão do mesmo nome do parque. Quando já estávamos quase chegando a esse local, nos deparamos com uma situação inusitada. Uma vaca estava em nosso caminho próximo a tranqueira por onde deveríamos passar, e Gabriel e Rodrigo que estavam logo a frente deram o alerta para que corrêssemos em direção ao morro. Mal deu tempo de nós avistarmos a vaca enlouquecida correndo atrás deles e em nossa direção. A minha frente, um dos cavalos reserva sumiu dentro de uma vala que eu não havia percebido e, muito menos Anne Kristine que estava logo ao meu lado. Sorte que ele não se machucou e continuou correndo dentro da vala. A vaca continuava furiosa atrás de Rodrigo que com seu poncho dava uma de toureiro atraindo ela para a vala adiante. Ele pulou do cavalo, atravessou a vala e, de lá abanava o poncho para ela, do outro lado. Eu já estava no morro do outro lado observando tudo a longa distância e em segurança. Tomamos um senhor susto. Mas a adrenalina foi o suficiente para reanimar todo mundo já cansado das longas horas de cavalgada. Chegamos ao o refúgio em Tambopaxi ainda corados pela aventura e loucos por uma cerveja, comida e um bom banho, após 7 horas de cavalgada e 39 quilômetros percorridos.

Encontramos nossas malas que haviam sido transportadas por Jorge no carro da “Hacienda”. Entramos em nossos quartos, tempo suficiente para termos nossas lareiras acesas. Estava muito frio. Logo, fomos para o bar do restaurante para bebermos uma cerveja enquanto aprontavam nossa comida. O lugar era lindo e a ermo! Costuma ser o ponto de partida para a escalada do vulcão Cotopaxi. Estávamos a 3750 metros de altitude. Boa comida e boa dormida mais que merecidas para finalizar esse dia e nos recuperar para o outro seguinte. 

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

–  O dia começa cedo no refúgio. Afinal, temos que preparar nossos equipamentos e roupas para ficarmos isolados nos próximos 2 dias. Carga pessoal reduzida para sobrar espaço para os mantimentos. Dois cavalos transportam a carga. Rodrigo já está junto com Jorge organizando os cavalos e a carga. Tudo tem que estar minuciosamente organizado e balanceado para não causar nenhum problema para os animais. Iríamos nos despedir de Jorge que só nos encontraria dois dias depois em Llanganates.

Logo após o café da manhã com uma vista linda do Cotopaxi e de colibris na janela do restaurante do refúgio, partimos em direção ao vale de Chalupas.

A chuva fina castigava um pouco e, mais ainda porque estávamos em campo aberto. Mas, o que me impressionou foi o quanto os ponchos de lã nos protegia, inclusive da chuva. Eram impermeáveis!!

O caminho que nos levaria ao vale Chalupas era longo e desafiador. Usamos o velho caminho por onde os Chagras há centenas de anos usam para transportar o gado de Chalupas para o Vale Pedregal. Atravessamos vários campos de larvas do vulcão Cotopaxi, considerado o mais alto vulcão em atividade do mundo. O cenário impressionava sempre. A sequência de cadeias de montanhas e vales parecia interminável. Tivemos veado galhado e manadas de gado e de cavalos selvagens correndo a nossa frente. O terreno muitas vezes era difícil e, era necessário descer dos cavalos para atravessar um charco ou passagem difícil. Mas, tudo era parte da grande e prazerosa atividade de desbravar a natureza em cima de um cavalo.

Enfim, chegamos ao Vale Chalupas, com o Cotopaxi por trás de nossos ombros. Aqui, os “Chagras” têm a sede de muitas “haciendas” que distribuem-se ao longo desse vale. Encontramos Reinbert e seu neto Victor fiéis representantes do que se conhece como “Chagras”. Nunca saíram do vale. Vivem de pecuária extensiva e criam cavalos para uso próprio e, as vezes para venda. Aliás, o cavalo de Victor é espetacular! Os arreios de couro são únicos e bastante característicos da região. Peço para tirar uma foto deles com o Cotopaxi ao fundo. Ficou maravilhosa. Conversamos um pouco e, logo seguimos em direção ao nosso refúgio onde passamos a noite. Havíamos percorrido 46 quilômetros em 6 hora e meia de cavalgada, em uma altitude que beirava os 2630 metros.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

–  Numa sede de outra hacienda vizinha a Reinbert, Gabriel reconstruiu uma casa que estava em ruínas em um acerto com os donos do lugar. Agora, utiliza como refúgio e parada para os roteiros de viagens por essa região. O lugar é rústico, mas bastante confortável e, com toda estrutura necessária para passar a noite. Sala grande conjugando estar, refeição e cozinha; três quartos e um banheiro; e alojamento anexo para o pessoal de apoio e equipamentos. Fica numa localização estratégica, com vista frontal para o Cotopaxi, e em cima de uma ribanceira do rio que corre logo abaixo.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

A noite que passamos lá foi muito linda e animada. Uma lua enorme se amostrava no céu; tomamos o cognac de Gabriel; coloquei minha caixinha do Ipod para tocar e logo estavam a dançar em frente a lareira da pequena sala de estar. Dei uma escapada para a varanda para fumar meu “purito” e acabar de tomar meu cognac. A noite estava maravilhosa e fria, e eu, cansada e feliz. 

–  Acordei cedo para começar um dia que seria longo. Antes do café, fui para fora tomar um ar fresco e fotografar os animais que estavam pastando em frente à casa. São muito dóceis.

Nesse terceiro dia de viagem, fomos de Chalupas para o Parque Nacional de Llanganates. Segundo Gabriel, teríamos como referência os vulcões de Quilidana e Cotopaxi para atingir a periferia da floresta amazônica, atravessar os andes, e passar pela lagoa Salayambo já dentro do parque onde iremos dormir.

Realmente, uma grande diversidade de terreno e topografia se apresentava a nossa frente. Fiquei surpresa com a quantidade de água que havia nessa região, e fui informada que o Equador é o principal contribuinte de água para a bacia da região amazônica. Metade do Equador, sua parte oriental separada pelos Andes, é ocupada pela floresta amazônica. Em um ponto da rota avistamos o que seria o começo da região amazônica, há apenas 30 quilômetros dali. Passamos por várias lagoas pequenas, e alguns canais de drenagem de água construídos pelos espanhóis na época da colonização. E terminamos por almoçar as margens de uma lagoa maior que contribuía para uma outra onde funcionava uma pequena hidrelétrica.

Chegamos ao refúgio do Parque nacional Llanganates no final da tarde. O frio estava ficando intenso e, eu não podia ir mais rápido. Edgar havia perdido uma ferradura e com frequência tropeçava. Fui com muito cuidado pela estrada cheia de cascalho evitando que ele não se machucasse antes de ter uma outra ferradura posta. Enfim, chegamos ao refúgio a 3890 metros de altitude, depois de percorrer 34 quilômetros em 6 horas de cavalgada. Mas, o posto estava vazio. O guarda havia saído. Enquanto esperávamos ele, tiramos a sela e arreios dos cavalos, tomamos vinhos, Mônica fez sessão alongamento, e apreciamos a natureza se modificando perante um pôr do sol maravilhoso. Quando o guarda chegou já era noite, já havíamos pulado à cerca do refúgio e feito um fogo. Fazia muito frio!!!!

O refúgio era um misto de escritório da guarda do parque com um alojamento para eles e visitantes. Uma sala grande conjugada com a cozinha, dois quartos com beliches e dois banheiros compunham a estrutura.

Foi colocado carnes na grelha do fogo do lado de fora e, Gabriel preparou outras coisas na cozinha do refúgio. O guarda, que se chamava também Rodrigo, foi muito simpático e receptivo. A comida estava apetitosa, e o pessoal estava muito animado com a conversa de Fabian, nosso novo companheiro de cavalgada, que iria nos guiar até Huagrahuasi. Mas, eu sentia muito frio! Não adiantava o fogo e todas as roupas que tinha colocado em cima, e muito menos o vinho que estava bebendo. Fui dormir e tentar me aquecer! Sorte que Gabriel tinha uma manta extra!

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

–  Acordei melhor e com uma vontade louca de tomar um banho! Fui direto para o banheiro, e creio que acabei com as últimas gotas de água quente do refúgio!

Encontrei Fabian, e ele estava um “Chagra” típico. Usava uma perneira de pele de lhama incrível. Deu vontade de ter uma. O cavalo dele estava selado de forma típica e com um estribo de madeira em forma de bota. Ele era muito falante e orgulhoso da sua terra e estilo de vida. Mostrou-me um vídeo de sua família laçando, derrubando e ferrando os touros. Logo depois, ofereceu-me um chaveiro feito por ele com uma cópia de seu estribo de madeira.

Como já falei, estava me sentindo bem melhor em relação à noite anterior, mas parecia que o meu corpo brigava contra alguma coisa. Gripe? Não sei. Mas por via das dúvidas, agasalhei-me fortemente! Edgar já estava com uma ferradura nova, mas hoje era o dia dele descansar e ir solto atrás dos outros cavalos reserva. Estávamos sem carga que estava sendo transportada por Jorge diretamente para o local de nossa próxima dormida.

Saímos em direção a Huagrahuasi tendo Fabian como guia. É um guia muito peculiar, para não dizer, doido. Está acostumado a andar por todo lado e tipo de terreno com seu cavalo. Seu cavalo parece flutuar sobre o charco, e sobe os morros mais íngremes como se fosse nada. Tentei segui-lo de perto, e logo desisti, Dei-me mal. Onde seu cavalo passava sem problemas, o meu afundava e/ou ameaçava refugar. Fui para o fim da fila observar melhor o caminho. Onde não parecia haver caminho, ele pegava reto. Subia em zig-zag sem pensar duas vezes. Engatava a primeira e, ia embora a sorrir com seu sorriso desdentado e sua pequena câmera de vídeo.

Chegamos a Santo Cristo, uma espécie de gruta onde uma imagem semelhante a de cristo talhada na rocha faz com que seja local de peregrinação e oferendas por parte dos “Chagras”. Dinheiro, fotos, velas e pelo da crina do cavalo estão espalhadas em torno dela. É uma forma de pedir proteção para a família, animais e boa colheita. Não é um lugar de fácil acesso. Fica numa encosta de montanha muito íngreme e, o acesso é feito por um caminho estreito e escorregadio. Saltamos dos cavalos para que eles fosse puxados um a um. Mas, antes fomos fazer o rito de passagem, e oferecer uma oferenda a Santo Cristo para que pudéssemos seguir nosso caminho em paz. Nesse caso, foram o pelo da crina do meu cavalo e o dinheiro de A. K.. Logo após o ritual, fiquei lá em cima e pedi ao Rodrigo para passar o meu cavalo, pois queria documentar aquele momento. Os cavalos foram passando uma a um puxados por seus donos, e abaixo e ao fundo dava para ver uma lagoa e um vulcão.

Foto: Jacira Omena

Foto: Gabriel Espinosa

Da mesma forma que dizia a Fabian que ele era um doido, ele me dizia que doida era eu de fotografar em cima de um cavalo num terreno daquele. Enfim, éramos todos loucos.

Minha capacidade e vontade de fotografar não eram suficientes para documentar a grandiosidade e diversidade da paisagem. Cadeias de montanhas e vales se sucediam. Águias, condores, caracaras, rebanho de gado e manadas de cavalos selvagens cruzavam a nossa frente.

No caminho, passamos mais uma vez por canais de drenagem de água que nesse caso se destina a irrigação dos vales Salcedo e Latacunga mais abaixo. Um imenso lago represa serve de reservatório para produção de energia. Logo após passarmos pelo paredão da represa tomamos um caminho que subia a montanha. Na verdade, mais uma montanha. Incrível ver lá embaixo todo o caminho percorrido. E pensávamos enquanto o fazia que estávamos já acima de tudo. Engano, no Equador, sempre tem uma montanha mais alta do que a que você está.

Cavalgamos por longo tempo montanha acima e logo depois numa espécie de platô. O terreno era muito encharcado e lá, só tínhamos como companhia uma manada de 22 cavalos selvagens. Eles chamam de “paramos”. Depois, começamos a descer em direção a “Hacienda” de J. L. Cobo em Huagrahuasi. Por horas avistamos de lá de cima, o vale abaixo repleto de pequenas propriedades que cultivam uma diversidade de produtos, mas principalmente batatas. Completamente diferente da primeira parte da viagem, onde percorremos um cenário selvagem extenso, quase desabitado, apenas ocupado pelos “Chagras” e seus rebanhos dispersos. Quando nos aproximamos da base da montanha, já em terras de J.L. Cobo, percebemos a transição do pasto nativo para o pasto implantado para a sua criação de touros. Ao chegar na estrada, encontramos José Luis Cobo em pessoa nos aguardando para mostrar o caminho de sua Hacienda. Seguimos sua indicação e encontramos algo único. Ele estava nos aguardando e, filmou nossa entrada pela alameda que levava a sua casa. Seríamos os primeiros “turistas” que seriam recebidos em sua casa. L. Cobo é um famoso toureiro equatoriano que fez fama na Espanha. Agora, aposentado, cria touros para eventos de touradas no Equador, Espanha, e outros países da América Latina onde ainda acontecem com grande frequência. Além disso, promove touradas em diversas arenas no Equador. Mesmo aposentado continua sendo um toureiro em sua postura habitual. Sua “Hacienda” é incrível. Tem uma casa encantadora, mas com uma decoração extremamente peculiar e, para muitos, assustadora. Por todos lados, cabeças de touros com seus grandes chifres, roupas de touradas, fotos e recortes de jornais emoldurados onde se vê sua glória passada. Ao lado da casa, uma arena particular encantadora se não servisse para matar os touros. Jantamos todos em uma sala de jantar cheia de pompas, servidos uma a um por uma brigada de empregados que passavam o jantar em travessas. Na cabeça da mesa, J. L. Cobo. Depois do jantar, nos recolhemos após um dia cansativo, mas repleto de coisas interessantes para serem memorados. Cavalgamos 7 horas, quarenta e seis quilômetros a uma altura de 3280 metros de altitude.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

–  Na manhã seguinte, antes de partimos rumo a Patate, fomos conhecer a criação de touros de L. Cobo. Em seu carro, entramos dentro dos cercados onde encontramos animais incríveis. Montanhas de músculos com olhares criminosos. Alguns estavam sendo preparados para eventos futuros e, outros já indutados curavam suas feridas.

Partimos rumo a Patate e Hacienda Leito. Pegamos um bom trecho pela estrada, e paramos para almoçar num restaurante com um viveiro de trutas. Almoço delicioso. Mas saímos tarde, pois tínhamos ainda um longo e espinhoso trecho a cumprir antes de chegar ao nosso destino.

Nos deparamos com um trecho digno de um teleférico. Teríamos que descer o morro que estávamos e, subir o outro imediatamente depois, para alcançarmos o caminho do outro lado. Tivemos de descer dos cavalos, amarrar as rédeas e, soltá-los para que seguissem a trilha a nossa frente rumo a uma pirambeira abaixo. Descemos quinhentos metros por uma trilha, dentro de uma capoeira, extremamente íngreme e cheia de pedregulhos que nos faziam deslizar. Fui a última da fila a descer. Desci cantando, para esquecer o esforço, e amparada por um cajado. Ao chegar embaixo, apesar de que para baixo todo santo ajuda, eu estava exausta pelo esforço feito para não cair, não torcer o tornozelo, nem machucar o joelho! Mas, ainda não tinha acabado. Pegamos os cavalos por pouco tempo. Logo, a trilha que nos levaria acima começou a fechar de mato, e o espaço entre o caminho e o precipício era muito próximo. Mais uma vez, tivemos que descer do cavalo, tocá-los para cima sozinhos e segui-los atrás. Só que agora, o sentido era quinhentos metros para cima e numa altitude próxima a 3000 metros. Quase que morro. Faltava ar a cada passada. O que me fazia subir era o fato da noite está caindo, e eu enxergando pouco sem minha lente. Enfim, chegamos em cima sem nenhum problema, a não ser pelo meu mal humor. Iria passar! Na Hacienda Leito só iríamos chegar as 21 horas, depois de 44 quilômetros percorridos em 7 horas de cavalgada.

A “Hacienda”, na verdade, era um hotel grande que recebia turistas de todas as partes do mundo que dali vão para Los Bãnos e também para a Amazônia. O dono nos recebeu e, logo, de uma forma não muito receptiva, foi dizendo que já era tarde e não havia comida. M. ficou contrariada e começou a argumentar com ele. Eu, que já havia pedido e recebido de cortesia uma dose de Havana Club, fiquei só assistindo a discussão. Enfim, ele arranjou uma tábua de frios e pães, e abriu uma garrafa de vinho para se desculpar. Não adiantou muito, porque o álcool sem muita comida fazia os ânimos subirem mais ainda. Bom, eu, já tinha bebido umas quatro doses de Havana, agora estava tomando vinho também. Como eu disse antes, o mal humor iria passar! Deixamos o dono já meio bêbado e fomos para a varanda fumar um “purito”. M. achava que estava fumando maconha!!!!!

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

–  Na manhã seguinte, após um café da manhã delicioso, tomamos o caminho das montanhas rumo a Los Bãnos. Pela trilha que rodeava a encosta da montanha íamos avistando o vale deixado para trás. Agora, no claro do dia, percebíamos o quanto ele era ocupado por produção de frutas, legumes e flores. Várias estufas eram vistas de longe em várias partes daquele vale. Passamos por pequenas propriedades que plantavam milho e criavam vaca de leite. Um bosque nativo, com muitas cachoeiras e muita neblina. Área de proteção ambiental e observação de pássaros. Esse tipo de bosque é chamado de “Bosque Nublado”. Próximo a Los Bãnos avistamos do alto e a frente, o vulcão Tungurahua. Na verdade, avistamos sua base com seu pico parcialmente e logo depois completamente encoberto por neblina.  Mais um pouco abaixo, começamos a perceber a existência da cidade que se espalha perigosamente por toda a base do vulcão. Fomos descendo cuidadosamente por uma ladeira de paralelepípedo que iria nos levar a uma ponte de acesso a cidade. O que parecia perto, demorou horas para ser atingido. Fomos ziguezagueando vagarosamente pela estrada entrando na cidade por sua periferia. Ao chegarmos ao fim da ladeira, encontramos uma ponte suspensa com um grande vão sobre o rio que margeia a cidade. Entramos na cidade e, encontramos Jorge que nos aguardava para nos indicar o caminho para o lugar onde o caminhão nos aguardava para embarcar os cavalos de volta para La Alegria. O caminhão estava num terreno baldio as margens da rodovia, próximo ao rio. Levamos todos os cavalos para lá, e tiramos selas, arreios, alforjes e objetos pessoais. Um a um, os cavalos foram sendo colocados para dentro do caminhão. Inclusive Panda, nosso amigo mascote. Um Old english sheep dog que nos seguiu desde Patate. Presenciei e fotografei todo esse momento com o aperto no peito que dá todas as vezes que estou para acabar uma viagem. Havíamos cavalgado pouco menos de 23 quilômetros em três horas e meia, no dia de hoje. A menor distância percorrida num dia desde que começamos essa jornada de aproximadamente 230 quilômetros entre La Alegria e Los Bãnos.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Foto: Monica Linke

Foto: Monica Linke

Deixamos os cavalos para trás, e agora iríamos para o hotel em Los Baños. No dia seguinte, tomaríamos o carro de volta para La Alegria. O Hotel em Los Baños é também um spa e, bastante aprazível. Com boa estrutura, espaço, acomodações e comida. Passamos bem.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

–  No dia seguinte, depois de um lauto café da manhã, pegamos o carro de volta para La Alegria. Paramos no meio do caminho numa feira de artesanato, e para comprar picolé e frutas. 

Chegamos a La Alegria na hora do almoço, mas antes não poderíamos deixar de tomar uma cerveja. A noite trocamos todas as fotos entre nós e as projetamos na sala. E no dia seguinte logo após o café da manhã todos nós nos despedimos. 

–  Viajar a cavalo no Equador é vivenciar florestas tropicais, apreciar uma avenida de vulcões e seguir as antigas trilhas Incas. A altitude em torno dos três mil metros, apesar de ser um desafio, oferece um cenário único. 

Próximo Grande Traversée - Argentina/Chile

Sobre o Autor

Jacira Omena
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Viajante e Escritora - Escreveu o Livro - Viajar a Cavalo:Um Guia Passo a Passo. "Viajo pelo mundo a cavalo sempre a procura de algo novo e surpreendente, e com grande frequência sou bem-sucedida nessa busca!

*O conteúdo dessa matéria é de inteira responsabilidade do seu autor, não tendo a Viajar a Cavalo qualquer responsabilidade sobre o teor dessas informações.

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