Grande Traversée – Argentina/Chile

Grande Traversée – Argentina/Chile

Foto: Jacira Omena

 

Por Jacira Omena 

 

JANEIRO DE 2011

–  Foi no começo de janeiro de 2011, mais precisamente no dia seis, que comecei uma das melhores viagens a cavalo da minha vida até agora. A travessia dos andes desde Bariloche, Argentina, até Puerto Varas, Chile, chamada a Grande Traversée.

No dia anterior, ainda em Bariloche, o grupo se reuniu em torno dos operadores para se conhecerem mutuamente. O grupo era composto principalmente por franceses e mulheres. Apenas eu e uma dinamarquesa quebrávamos essa hegemonia. T. e C. operavam essa cavalgada juntamente com o marido de T., D., que conheceríamos mais tarde. C. é proprietária da Open Travel no Chile, e T., da Andesluna, na Argentina. Nessa ocasião todos se apresentaram, e recebemos as instruções em relação a bagagem e informações sobre os próximos dias. Além disso, fomos juntos a um restaurante, para comermos alguma coisa.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

 – Partimos de uma estância há trinta quilômetros de Bariloche, onde foram escolhidos os cavalos para cada um, ajustadas as selas e estribos, e logo depois uma movimentação rápida para aquecer um pouco os cavalos. Momento de fazer os ajustes e guardar os objetos pessoais nos alforjes, que no caso são de lã e coloridos. Soube depois que são feitos no Chile por alguns colonos de uma região por onde iríamos passar.

Aproveito, e tento conhecer um pouco mais as pessoas a minha volta. T. e C., donas da operadora estão muito ocupadas finalizando os preparativos com seus auxiliares. Então, conheço A. (dinamarquesa) que morou no Equador e, fala muito bem espanhol; Marianick, francesa, de sessenta e cinco anos, aposentada, com sua amiga francesa C.; N., francesa da região da Alsácia, psiquiatra, e M., francesa, trinta e um anos, jornalista. Enfim, supremacia da terra de Napoleão.

Todos juntos, e faltando apenas D., marido de T., que iria nos encontrar depois, começamos o primeiro dia de nossa viagem. Seguiam logo de perto, puxando os cavalos com as cargas, os gaúchos Manoel e seu amigo que não lembro o nome agora. Mas, falta eu falar ainda dos lindos cachorros de T., da raça Border collie, que estão nos acompanhando.

O caminho de hoje foi através do “cerro” Las Buitreras até a encontrar o rio Pichileufu, que percorre essa região, depois de 30 quilômetros de cavalgada. A trilha foi tranquila e sem grandes dificuldades. Deu para notar que todos os participantes do grupo tinham muita habilidade ao montar. Apenas chamavam a atenção a senhora de mais idade que tinha um jeito muito peculiar de cavalgar. Sempre queria está à frente monopolizando a atenção dos guias. E como eu estou sempre atrás, pude perceber que a toda hora começava a pender perigosamente para um lado, para logo retornar a posição.

A paisagem era pontuada por formações rochosas, pasto natural, bosques, e córregos. Avistamos ao longe uma manada de cavalos selvagens. Almoçamos a beira de um córrego, onde descasamos um pouco enquanto os cavalos faziam o mesmo e os gaúchos tomavam um mate.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

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O clima estava muito agradável e, até mais quente do que eu tinha previsto. Os cavalos, criollos argentinos, eram robustos, confortáveis e passavam bastante confiança ao transpassar os obstáculos, mesmo os mais difíceis.

E foi com tranquilidade que chegamos, ainda claro, no ponto as margens do rio Pichileufu onde iríamos acampar. No lugar tinha um curral onde os moradores da região manejam o gado durantes as temporadas de verão. Enquanto armávamos as tendas e eram divididas as duplas para ocupá-las, os gaúchos montavam o acampamento, acediam o fogo, e organizavam a comida. A grelha no instante foi colocada, a carne sangrante em cima dela, e o bule com água para o mate, também. O dia começava a esfriar. A. estava aprendendo a lançar a linha para pescar truta com P., nosso cozinheiro. M., deitada no capim, lia um livro, e as outras ficaram sentadas em volta do fogo. Eu decidi ir tomar um banho no rio. Peguei minhas coisas, e fui para o rio. Na verdade, quase um córrego, com águas rasas, pedregoso e gelado. Mesmo assim, mergulhei rapidamente e tomei o meu banho de honra. Voltei correndo para dentro da minha barraca para colocar o máximo de roupa em cima. Feito isso, fui também para a beira do fogo esperar a comida bebendo um chá verde que havia trazido da China, recentemente.

Foto: Jacira Omena

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A noite caía, e o céu era pintado com cores alaranjadas do sol que se punha em algum lugar por ali. E já que isso acontecia, o fogo passava a ser o elemento mais importante daquela noite que se iniciava. Não se fazia de rogado, e sem concorrentes destacava-se no escuro como personagem principal.

Foto: Jacira Omena

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– O dia começou cedo no acampamento, e estava lindo. Os gaúchos já verificavam os arreios e as condições dos cavalos que pastavam em torno de nossas barracas e, T., P. e D. desenrolavam o café.

Aos poucos, as pessoas foram saindo das barracas, e não estavam com umas caras muito boas. Não haviam dormido bem por causa do frio. Reclamaram que não tinham sido informadas de tão baixas temperaturas e, que o saco de dormir não foi suficiente. Bem, estamos na Patagônia e, mesmo no verão, as temperaturas variam muito de um extremo ao outro muito rapidamente. Passei bem a noite, havia colocado tudo que tinha para frio em cima de mim. Funcionou!

Foto: Jacira Omena

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Fomos acompanhando a bacia do Pichileufu até o “cerro” Carreras.  Cruzamos um passo a 1800 metros de altitude de onde podíamos ver picos nevados ao longe e a imensidão de terra desabitada que se espalhava além do caminho que já havíamos passado. O caminho era acidentado, e requeria uma certa destreza nas subidas e descidas. A vegetação era típica de transição entre os bosques e a estepe. Paramos para almoçar as margens de um córrego, muito próximo de onde manejavam ovelhas numa veranada. Claro que os gaúchos fizeram fogo para o mate! Logo após ultrapassar o passo do “cerro” Carreras nos deparamos com a nascente do rio Alto Chubut. Um região muito rica de vida animal, onde com muita frequência se avista águias, condores e lobos.

Foto: Jacira Omena

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Depois de 25 quilômetros percorridos, fomos acampar a 1500 metros de altitude, próximo a um refúgio protegido por uma encosta e bosque, parte de uma veranada usada pelos locais, descendentes dos índios Mapuches. Aí, montamos as tendas e, enquanto isso, um verdadeiro assado patagônico foi colocado no fogo. Mesmo com tantas coisas a fazer, a todo momento um se cercava de lá, onde Paqui administrava o fogo e a marinada.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Nesse final do dia, sofri com um banho de cuia gelado na beira de um poço quando já era noite. O lugar era descampado e, esperei escurecer tomar meu banho. Quase morro!!!

E foi em torno da fogueira que comemos, bebemos vinho, ouvimos música e conversamos em todas línguas possíveis. O dia acabava feliz!

– O novo dia começa com o levantamento do acampamento, café da manhã e arreio dos animais acontecendo tudo ao mesmo tempo. O céu está lindo e sugere um dia de muito calor, com ode fato aconteceu.

A trilha percorre o vale do rio Alto Chubut, passa por uma antiga área de garimpo e toma uma região bastante acidentada com subidas e descidas íngremes onde muitas vezes tivemos de saltar dos cavalos e puxá-los.

Foto: Jacira Omena

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Continuo impressionada com as passadas firmes dos cavalos. A resistência do criollo com a robustez do quarto de milha fazem os cavalos de T. e D. cavalos com excelentes características para esse terreno. Atravessamos um passo na colina chamada Las Serruchas, e do alto avistamos ao longe os picos nevados das Cordilheiras dos Andes e o El Tronador.

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  Chegamos no local de acampamento ao final da tarde, depois de trinta quilômetros percorridos, muito calor e poeira. O dia foi cansativo. Mas, o lugar escolhido premiava qualquer esforço. Acampamos próximo ao córrego numa área com alguns arbustos e envolta por uma pequena colina. De frente para a porta da minha tenda se descortina um vale com uma montanha ao fundo onde o sol se punha, E foi nesse córrego que falei a pouco que me banhei quase como se estivesse numa Jacuzzi, só que gelada. Como de costume, acabamos a noite em volta da fogueira, e hoje, com uma lua nova finíssima, lá em cima, como testemunha.

Foto: Jacira Omena

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– O dia que estava começando prometia. Ao final dele estaríamos na estância Fita Lancao, E teríamos nossa primeira noite de sono em uma cama tradicional e um chuveiro nos esperando, desde o início de nossa viagem. Merecíamos, pois o dia foi longo, quente e com muita poeira pelo caminho. Adentramos pelas terras da estância que já mostrava sua vocação para a criação de ovelhas, produção de lã e, apenas pouco gado de corte. Avistamos a sede da estância com bastante alívio, após mais trinta quilômetros percorridos. A casa é antiga, do início do século passado, e tem todas as suas características mantidas pelos donos que residem no local. Encontramos eles assim que desmontamos e, apresentaram nossas habitações. Estávamos felizes!

Após o banho, já instalada em meu quarto com uma cama imensa que fiz questão de tomar posse assim que tive oportunidade, desci direto para uma sala de refeição enorme onde uma mesa grande dominava o espaço em frente a um assador. Ali, confraternizamos todos e, mais uma vez dividimos a comida e vinho em torno de muita conversa e gargalhadas. Agora, todos já estavam mais relaxados e com menos formalidades no convívio.

– O dia seguinte começou com todos revitalizados depois de uma confortável noite de sono. Após o café fomos visitar as instalações da estância. Principalmente, os galpões onde são feita a tosa das ovelhas. O sistema é bastante interessante e organizado para agilizar o trabalho essencialmente manual em milhares de animais. Divisórias levam a inúmeras máquinas elétricas de tosa onde imediatamente após elas ficam currais separados de cada operador para que se possa contabilizar o ganho de cada um. Apesar de vazio, impressiona o tamanho e os equipamentos utilizados.

Aquele seria o último dia a cavalo na Argentina. Cavalgamos da estância até Norquinco um caminho de vinte e dois quilômetros. Durante um trecho, acompanhamos a antiga estrada de ferro onde encontramos ainda vagões abandonados. Nossos cavalos seriam deixados para trás com os gaúchos e Dominik. E logo depois do almoço, fomos de van para El Bolson, onde passaríamos a noite em uma pousada próxima a cidade. Antes do dia acabar, fomos a uma pizzaria em El Bolson onde comemos muito bem e, bebemos uma cerveja artesanal excelente.

Foto: Jacira Omena

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– Começamos o dia seguinte na feira artesanal de El Bolson. Muito conhecida, concentra artesões de toda região. Comemos ali mesmo nas barraquinhas de comida. Valeu a pena. Dalí, partimos para as margens do lago Puelo, deixando C. para trás com uma família de australianos que estavam fazendo o trajeto inverso. T. seria nossa guia no Chile. Passamos pela migração argentina e pegamos um barco com motor turbo para ultrapassar uma corredeira estreita que une os dois lagos na fronteira da Argentina com o Chile. Foi uma aventura! Dava a impressão que estávamos fazendo rafting com um barco a motor! Chegamos do outro lado do lago já no Chile. Todas nossas coisas foram desembarcadas, recolhidas e transferidas para o outro barco que já no lago Rocas iria nos levar para a “Isla Bandurrias”. Mas antes, subimos um morro e carimbamos nossos passaportes no posto dos “carabineiros” que ficava bem no alto dele. Descemos pelo outro lado e chegamos nas margens do lago Rocas onde o pessoal nos esperava para levar a ilha.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

A paisagem é linda, árvores e bosques por todos os lados. A água do lago é de um verde profundo. E em vez de cavalos, hoje estávamos tendo um dia de caminhada e barcos!

A natureza daquela parte do Chile difere bem daquela da Argentina que nós cruzamos. O Chile que nós encontramos logo ao cruzar os Andes era muito mais úmido e com bastante vegetação.

Chegamos a Bandurrias, e fomos recebidos por F., mãe de C. que vive lá. Ficamos na sua casa de hóspede que está preparada para receber as pessoas que fazem a travessia. A localização da casa não podia ser melhor. Do deck avistávamos o lago, a outra margem e, o barco que chegava, com as nossas bagagens, ao pequeno porto.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

A noite, fomos recebidos por Françoise em sua casa para jantar. Tivemos uma noite muito agradável e uma refeição deliciosa. Acabamos a noite em torno da lareira jogando conversa fora. Voltamos para a casa de hóspede por uma trilha sob a luz de uma lanterna.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

– Após um café da manhã bem animado na grande mesa da sala conjugada da casa de hóspede, pegamos o barco que nos levou a mesma margem do lago do dia anterior onde encontramos T. e D. que seriam nossos companheiros e anjos da guarda pelos próximos dias.

Tomamos os cavalos chilenos pela primeira vez desde que atravessamos da Argentina para o Chile. Os cavalos chilenos são mais delgados e ágeis que os argentinos. São mesclas de Criollo e Árabe, e alguns de Criollo e Puro sangue inglês. Qualquer um deles dá uma energia extra e um temperamento mais ousado ao cavalo Criollo.

Nosso destino seria uma cavalgada de uns vinte e dois quilômetros pelas redondezas da “Isla Bandúrrias”, mais precisamente, o Lago Azul.

Foto: MCambray

Foto: MCambray

 Passamos por bosques do que eles chamam “Selva Valdiviana”, riachos e enfim, chegamos ao Lago Azul onde paramos para almoçar. Ventava muito e, senão fosse por isso, seria possível banhar-se em suas águas azul e cristalina.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Voltamos para a ilha novamente onde teríamos o final da tarde para descansar no deck de madeira em frente à casa de hóspede, e organizarmos as coisas para o dia seguinte quando deixaríamos a hospitalidade de Françoise.

– Pegamos o barco logo cedo, nesse que seria o nono dia de nossa cavalgada, para encontrarmos novamente com T. e D. que nos aguardavam com os cavalos no mesmo lugar do dia anterior. Agora, levaríamos a carga com nossos pertences e um cavalo extra. Seguimos mata a dentro passando por riachos e atravessando pequenas propriedades distantes três dias da civilização. Seguimos ao encontro do rio Puelo. Nessa parte o rio é caudaloso e profundo e de um azul quase turquesa. Para nossa surpresa, somos avisados para desmontar e remover as selas dos cavalos.

Foto: Jacira Omena

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As margens do Puelo nos aguarda um bote motorizado. Vamos usá-lo para atravessar o rio. Estava apenas começando um dos dias mais excitantes dessa viagem.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Resumindo – Entramos dentro do bote com as selas e arreios, duas pessoas por vez, e o T. de dentro dele maneja dois cavalos ao mesmo tempo para que eles atravessem a nado o rio, imediatamente atrás barco – A cena é de cair o queixo. Dois a dois, os cavalos e montadores foram sendo transportados para o outro lado do rio.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Voltamos a trilha corados pela adrenalina decorrente do acontecido. A partir daí, seguimos pelas margens do Puelo até mais adiante nos depararmos com uma ponte suspensa sobre um cânion por onde passava o Puelo logo abaixo. Dessa vez iríamos atravessá-lo pela ponte.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

A ponte de madeira era estreita e oscilante e, por isso se fez necessário que todos apeassem dos cavalos para que um a um passassem com muito cuidado puxando os cavalos.

O cenário era deslumbrante e a experiência era adrenalizante, para alguns, um pouco assustadora. Os cavalos comportaram-se de forma muito tranquila.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Seguimos novamente pelas bordas do rio até entrar em uma mata rala que emoldurava um caminho que em pouco tempo nos revelou o nosso refúgio para aquela noite. Era a casa de R., fotógrafo alemão refugiado de guerra. Lá ele morava com S. e C.. E guiava pescadores de salmão pelos rios da região. O lugar onde a casa ficava era idílico. O bungalow ficava suspenso sobre as bordas do rio que passava logo abaixo do deck da varanda. A vista era sem fim. De lá, avistamos o sol se pôr e logo após a lua subir em um tom azulado daquela parte do mundo. Tivemos uma noite muito agradável. Demos muitas risadas a mesa de jantar. E logo depois de apreciarmos mais um pouco da visão da noite a partir da varanda fomos nos recolher nos quartos coletivos acima da casa.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

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– Logo cedo, pegamos os cavalos e seguimos pelo mesmo caminho que havia nos levado ali, até encontrarmos novamente a ponte suspensa sobre o rio Puelo. Hoje iremos em direção ao vale do rio Vetisqueros. Dia longo através de trilhas com densa vegetação, travessias de rios, riachos e pouquíssima civilização. Algumas pequenas propriedades autossustentáveis espalhadas pelo vale. O cenário é incrível e extremamente envolvente.

Foto: Jacira Omena

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Paramos na beira de um riacho para comer alguma coisa no meio do dia. Parecia ter havido um refugio há algum tempo atrás. Pés de cerejeiras muito carregados estavam acerca do lugar. Comer cerejeira do próprio foi uma experiência mais do que incrível por não dizer super deliciosa.

Foto: Jacira Omena

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Continuamos seguindo através do vale quase até o fim dele até encontrarmos uma pequena casa de madeira – A casa da B. – onde passaríamos as próximas duas noites.

Foto: Jacira Omena

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A casa estava ao meio pés de cereja, logo ao lado víamos uma horta e, adiante um quintal com criação de porco e galinha. Um par de javalis passeava solto catando cerejas que caiam dos pés ao lado da casa. B. estava lá na frente da casa para nos receber sob uma chuva fina que começara a cair. Com um sorriso tímido no meio da sua face com fortes traços indígenas nos dava boas vindas e convidava para entrarmos. Passamos pela varanda e adentramos pela casa de teto baixo e cômodos pequenos. Fomos um a um tomando lugar a mesa que estava posta com pão caseiro, manteiga e café. Ah! E torta de cereja. Uma maravilha!! Naquela noite teríamos um jantar muito animado. B. fala rápido e de boca fechada. Diverte-se comigo. Mostra-me as fotos dos filhos que já partiram. Descubro que gosta de Roberto Carlos. Então, canto para ela acompanhada do meu Ipod. Como igual a outras vezes, logo após o jantar, subimos para a parte de cima da casa onde dormiríamos ouvindo o barulho da chuva em colchões espalhados por um cômodo único grande. O dia seguinte amanhece chuvoso e com muita neblina. Estava programado uma incursão até o final do vale onde fica um glaciar. Faço a opção por permanecer na casa com B.. Os outros saem em meio a chuva para cumprir a programação do dia. Converso um pouco com B. e, fico na varanda vendo a chuva cair ouvindo música. Não demora muito, os outros retornam sem terem alcançado o objetivo. A chuva tinha aumentado e os níveis dos riachos da região haviam sido elevados tornando a cavalgada insegura. Todos juntaram-se dentro de casa onde passamos o resto do dia jogando conversa fora, ouvindo música e descansando para o dia seguinte.

– Deixamos a casa de B. junto com ela. Iríamos a Janada Grande. Mas não sem antes passar pela casa de T.. Tomamos essa direção como que regressando pela margem oposta do rio. Passamos pela casa de R., só que pelo outro lado.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

  Após atravessarmos vários riachos e rios e algumas propriedades, chegamos a casa de T.. Um lugar especial. Logo no sopé da colina, o estábulo, curral e piquete. A casa fica no alto de uma colina com vista para uma várzea a beira do rio. E foi lá que avistamos as filhas de T., V. e M. juntas aos cachorros observando nossa chegada. Subimos a ladeira e encontramos O., esposa de T., a nos esperar. Realmente, uma bela casa. Ao lado, um galpão de trabalho e um campo de futebol. Fica logo decidido que no fim do dia iremos fazer uma partida, Mercosul versus Europa. E foi o que aconteceu. Logo depois do chá e de colocarmos nossas coisas no alojamento, iniciamos a partida. A., com medo da derrota, juntou em seu time as filhas de T. e T.. No final, eu fiquei no gol e joguei junto com os gaúchos. Final: 10×0. Para o meu time, claro. Depois de um longo dia e muito esforço, tivemos um jantar maravilhoso com carneiro assado com batatas, legumes da horta e vinho. E muita dança no final.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

– Deixamos a casa de T. com destino a Janada Grande como estava previsto. Antes, atravessamos novamente o rio puxando os cavalos. Há uma certa altura da estrada que ia para lá, encontramos F. e M.. Eles estavam trazendo nossas malas. Alí deixamos, enfim, nossos cavalos e partimos em uma camionete para Puerto Varas, onde acabaria nossa viagem. No meio do caminho, um lago, Tagua Tagua, que atravessamos de ferryboat. Viagem linda. Um grande final. No final do dia chegamos em Puerto Varas onde jantamos juntos para a despedida.

Foto: Jacira Omena

Foto: Jacira Omena

A Grande Travessia dos Andes foi uma das melhores viagens a cavalo que já fiz. Marcou pela diversidade de topografia e atividades com os cavalos, pela organização, pelo grupo e pelas amizades que fiz para a vida toda.

* Esse roteiro é operado por Andesluna e Open Travel

http://www.andesluna.com/grandee-traversee.html 

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Sobre o Autor

Jacira Omena
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Viajante e Escritora - Escreveu o Livro - Viajar a Cavalo:Um Guia Passo a Passo. "Viajo pelo mundo a cavalo sempre a procura de algo novo e surpreendente, e com grande frequência sou bem-sucedida nessa busca!

*O conteúdo dessa matéria é de inteira responsabilidade do seu autor, não tendo a Viajar a Cavalo qualquer responsabilidade sobre o teor dessas informações.

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