Identidade das Raças e Tradições Equestres

Identidade das Raças e Tradições Equestres

Foto: Jacira Omena

 

Por Lúcio Sérgio Andrade*

 

No contexto da Equideocultura mundial, a brasileira se apresenta como uma das mais ricas, pois engloba 05 raças de andamento natural marchado. E como o principal mercado mundial consumidor de equídeos concentra-se no segmento dos equinos de lazer, a nossa equideocultura é realmente diferenciada.

 É oportuno lembrar que a palavra equideocultura abrange os asininos e muares, ao contrário de equinocultura, que se refere exclusivamente aos equinos.

 O Brasil é o único país do mundo a possuir uma raça pura de jumentos marchadores, conhecida como Pêga, responsável pela produção dos famosos muares marchadores de sangue Pêga misturado com sangue equino das raças de marcha.

Apenas uma raça foi formada fora de Minas Gerais, a Campeira, originária de Santa Catarina.

 O início da formação das raças antigas data do final do século IX. A fixação de características raciais ocorreu ao longo do ultimo século, com uma aceleração do processo a partir da implantação dos serviços de Registro Genealógico, o que ocorreu por volta da segunda metade do século XX.

 Desde os primórdios, havia uma tradição envolvendo trajes típicos e arreamento. Por arreamento entende-se embocaduras, sela e acessórios, ajudas auxiliares de equitação. Além das características raciais de morfologia e andamento, o arreamento e trajes típicos também estão ligados à identidade de cada raça.

 Infelizmente, quase todas as nossas raças brasileiras vêm perdendo suas respectivas identidades próprias, devido à um fenômeno mundialmente conhecido como “homogeneização” das raças equinas. Como é típico do brasileiro não valorizar o que é da terra, permitiu-se que influências de raças exóticas descaracterizassem a identidade de cada raça, em um grau maior ou menor. A raça que mais influencia outras raças é a Arabe. Primeiro, pela sua prepotência genética, como a raça mais pura do mundo. Segundo pela beleza de sua apresentação em pista.

 Na raça Mangalarga Marchador os estragos foram relevantes. Inicialmente, através da entrada de sangue Árabe em determinada linhagem, todo um trabalho de seleção centenária, desenvolvido por tradicionais criadores mineiros desde o início do século XX, através de um louvável ideal de forjar raças puras, foi drasticamente prejudicado em apenas uma década de valorização daquela linhagem nas pistas de julgamento. O andamento mudou, de uma marcha batida clássica, para uma marcha de transição, bem próxima da marcha trotada. Atualmente, a crescente infusão de sangue Mangalarga, alterou drasticamente caracteres raciais de morfologia e de andamento. 

A equitação, antes tipicamente de estilo rural, passou a sofrer influência dos estilos clássico e militar, em termos de postura, tipos de rédeas e embocaduras, selas, vestimenta usada por cavaleiros e amazonas. Os bridões e freios típicos dos cavalos marchadores, antes largamente utilizados nas regiões do sul e sudoeste mineiro, foram substituídos por outros típicos dos cavalos trotadores. As selas, antigamente do tipo mineira ou paulista, genuinamente nacionais, foram substituídas pelas estrangeiras, do tipo australiana, inglesa, americana e, mais recentemente, o “cutiano”, que desloca o assento do cavaleiro para a dianteira e limita o uso do estilo rural da equitação do cavalo marchador.

 Na apresentação de pista, os cabrestos tradicionais confeccionados em couro cru curtido e trançado, de material natural, foram substituídos por cabrestos finos de cabo de aço, cortantes, agressivos, ou de correntes passando sobre o chanfro ou queixo, também de muita severidade. Já os chicotes de fibra foram uma evolução na apresentação de pista, mas quando em mãos competentes e não violentas. Da mesma forma, as talas de equitação foram uma evolução, em relação aos chicotes de doma e serviço. Também o uso de esporas mochas, foi uma evolução em relação às esporas de rosetas longas e perfurantes.

 No traje típico, os chapéus foram substituídos pelos bonés, que mais lembram cavaleiros urbanos. As camisas, antes em estilo rural brasileiro, foram substituídas por camisas pólo, sem vínculo com o meio rural brasileiro.

 O processo da doma moderna, conhecida como doma racional, trouxe muitas vantagens. A principal delas foi minar o processo violento da doma tradicional. Entretanto, muitos marchadores natos estão perdendo a qualidade de marcha, e mesmo de temperamento de sela, através do método 100% doma racional.  Esta é uma verdade que prefiro discutir em outra matéria específica sobre o assunto, devido à complexidade, importância e polêmica que certamente será levantada.

 É triste reconhecer, mas a falta de mais fidelidade no nacionalismo brasileiro também é notório na equideocultura. Ao contrário, todas as raças americanas têm identidade própria, principalmente a mais famosa delas, a Quarto de Milha, 100% fiel ao estilo cowboy de equitar, de arreamento e de vestir. As raças espanholas também são meticulosamente nacionalistas, de identidade própria impar; as raças de hipismo clássico idem.

 Os dirigentes das associações brasileiras de criadores, juntamente com os respectivos conselhos técnicos que decidem normas de regulamentação, precisam parar para refletir sobre a preservação da identidade de nossas raças. Que representam patrimônios nacionais de valor inestimável. Além de que,  jamais haverá um reconhecimento além fronteiras brasileiras, o que é no mínimo limitante em termos de abertura de mercado. 


 *Lúcio Sérgio de Andrade – Zootecnista, escritor, pesquisador, especializado em raças equinas nacionais e internacionais de andamento marchado.

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