Janeiro de 2015 – O Dezembro que Não Acabou

Janeiro de 2015 – O Dezembro que Não Acabou

Foto: Jacira Omena

 

Por Jacira Omena*

 

 RAJASTÃO (ÍNDIA) – PATAGÔNIA (CHILE E ARGENTINA) 

Foto: Jacira Omena

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– Narro meus caminhos através do mês de dezembro de 2014. O mês que não acabou, mesmo sendo Janeiro de um novo ano.

 O caminho veio depois, a história dele começou antes. E começo a lembrar do início quando poucas horas antes de ir para o aeroporto, pergunto a mim mesma para onde dessa vez e porquê? 

– Respondo, em pensamento, para mim mesma – Dessa vez o destino será inicialmente São Paulo, de onde parto em 48 horas para Delhi, Índia. E depois, Rajastão, região onde farei uma viagem a cavalo. Terra do lendário cavalo Marwari. E motivo para eu fazê-la pode ser definida por uma palavra – FUGA.

Fuga da realidade que permearia meu final de 2014 e início de 2015. Explico – Depois de meses hospitalizada, minha mãe faleceu. Com ela foram parte da minha alma e o sentimento de pertencimento. O pouco tempo desde a sua ida não ajudaria nem um pouco a passar as festas do final de ano sem que as lembranças aumentassem a dor pela sua falta. Além disso, seu aniversário é no dia três de janeiro. Dessa forma, a Índia foi o resultado de uma busca por uma viagem que me levasse para longe dos fatos que me afetavam e machucavam, onde não daria mais para suportar a dor.

 Na operadora Cheval d´Aventure encontrei um roteiro com os incríveis Cavalos Marwari durante todo o período natalino, de Réveillon e início do ano. Enfim, perfeito para a minha fuga. 

– Mas a minha viagem não iria acabar aí. Quando estava tudo organizado para eu ir para a Índia, minha amiga Tammy, que mora na Patagônia Argentina, fez o convite para eu passar um tempo com ela durante a temporada de cavalgada ajudando na logística. Não pensei duas vezes antes de dizer sim. 

– Voltando ao ponto onde falava sobre os momentos que antecederam a minha ida ao aeroporto – Tomei o avião para São Paulo no dia quinze de janeiro e, no dia dezessete parti de lá com destino Delhi através de uma conexão no aeroporto de Doha, Qatar. 

– Após intermináveis quase vinte e quatro horas entre aeroportos e voos, cheguei ao aeroporto de Delhi, onde uma pessoa me esperava para levar para o hotel. Ao sair do aeroporto deparei-me com uma névoa densa que persistiu durante todo o trajeto e resistiu até o final do dia. Dava um ar mais sombrio a paisagem ruidosa, densa e caótica que presenciávamos ao cortar as vias que nos levava ao hotel. Quanto mais deixávamos o aeroporto e penetrávamos na cidade, as cenas de miséria, sujeira e trânsito caótico se intensificavam. A imagem não fica melhor quando chego ao hotel e nosso carro é completamente revistado como se fossemos entrar numa prisão de segurança máxima. Logo após, antes de entrar no lobby propriamente dito, passo, ainda por uma máquina de raio x juntamente com todos os meus pertences. Uma ilha de tranquilidade e paz me esperava lá dentro, mas, a visão de lá de fora ainda perturbava a minha mente já cansada da viagem. Esforcei-me para não tirar conclusões precipitadas. Precisava descansar. Teria um dia sozinha em Delhi, antes de me encontrar com os meus companheiros de viagem.

 – Passei meu dia em Delhi na companhia de uma guia tipicamente indiana. Fui aos principais pontos turísticos e, principalmente segui as pegadas (literalmente) de Gandhi na capital. 

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Tomei um Tuktuk e atravessei o caótico tráfego de Old Delhi com a coragem de uma pessoa completamente insana. E no final do dia, posso dizer que o fuso horário e as últimas e longas horas de viagem me derrubaram, que Delhi é linda e caótica ao mesmo tempo, e que eu me contive bastante antes de pegar a minha guia e jogá-la nos afluentes do Ganjes. 

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– Chega o dia que me encontro com o grupo que vou cavalgar. Antes de partirmos para a região do Rajastão passamos um dia juntos num clássico city tour. Seríamos 14 pessoas. Isso mesmo, 14! Nunca havia feito uma viagem a cavalo com tanta gente. E essa notícia começou a me preocupar. Um a um foi aparecendo no lobby do hotel. Diversas nacionalidades estavam presentes, e naquele momento estava difícil memorizar os nomes que iam sendo pronunciados com diferentes sotaques. Minha cabeça nessas horas fica confusa e começo a ficar aérea e entregar para Deus! Enfim, posso resumir que teríamos três americanas, quatro ingleses, uma canadense, uma iraniana, duas francesas, um casal de russos e, eu, a única brasileira. 

Foi um dia sem sobressaltos e desconfortável, apenas, pelo fato de termos que bater ponto nas “velhas” arapucas para turistas e de eu ter que lidar novamente com a mesma guia que me havia atendido no dia anterior. Continuei com vontade de atirá-la no Ganjes, mas me controlei. 

– Partimos para o ponto inicial da cavalgada, no início da manhã, logo após o café da manhã. Nosso ônibus deixa Delhi com destino a Vila de Dundlod, mais precisamente o forte situado no centro dela, de mesmo nome. Seriam 250 quilômetros percorridos em quase oito horas! E poderia ter sido pior. Entre cavalos, camelos, vacas, tuktuk, motonetas, carros e muita, muita gente, o nosso ônibus foi abrindo caminho através de vilas, rodovias e as vezes nada. Ao longo da estrada, avistávamos mercados de frutas e verduras e pequenas plantações. Mais chamava logo a nossa atenção, as condições precárias de vida. Como a vaca é sagrada, o camelo toma o seu lugar na carga de trabalho e transporte de material pesado. 

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Após quase oito horas desde que deixamos Delhi, adentramos por uma vila empoeirada. Aqui e ali percebíamos algumas suntuosas edificações que já haviam visto dias melhores. 

Ouvi quando o responsável pela agência local disse – preparem as câmeras! Imediatamente me coloquei em estado de atenção e empunhei minha câmera.

Aos poucos o caminho foi ficando estreito até que chegamos a uma muralha fortificada com apenas um acesso estreito através dela. O ônibus tomou esse caminho e foi passando por espaços que eram limitados por outras muralhas que se sucediam, átrios após átrios, até chegarmos ao coração do forte, onde nos deparamos com a visão de uma escadaria ladeada por Cavalos Marwari montados por indianos em trajes militares com turbantes, empunhando um estandarte com as cores de Dundlod. Tambores rufaram e empregados se alinharam para nos receber. 

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No topo da escada estava o dono de Dundlod, descendente de uma linhagem de Marajá, para nos receber pessoalmente, um a um. Seria nosso anfitrião naquela noite e nosso guia pelos próximos dias até o final da viagem a cavalo pelo Rajastão. Conhecido por Bonnie, na verdade Raghuvedra Singh Dundlod. 

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Na verdade, Dundlod é sua atual residência, e o centro do domínio de seus antepassados. O forte permanece original, e é uma mistura de arquitetura Mongol e Rajput. Na parte central, ricamente decorada e ornamentada, está a sala de entrada que dá acesso aos aposentos da família. Por toda parte, fotos de seus antepassados, e claro, cavalos Marwari. 

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Bonnie é o responsável pelo resgate da raça Marwari na Índia. A origem do cavalo está na existência de uma tribo do mesmo nome que era conhecida por suas habilidades guerreiras e agressividade. Parte dessa fama devia-se ao cavalo que eles montavam – O Marwari. Depois, os Marajás adotaram esse animal na defesa de seus territórios, e mais tarde na guerra contra a ocupação inglesa. Quando os ingleses ocuparam a Índia, adotaram alguns de seus costumes, como jogar Polo, mas logo viram o perigo proveniente dos cavalos Marwari. Proibiram a criação dessa raça e introduziram o cavalo de sangue puro inglês em todas as esferas equestres. Desde o exército ao esporte.

 Dormimos nos aposentos do forte adaptados para os participantes das viagens a cavalo. São básicos, quase espartanos, mas de alguma forma confortável.

 – Começamos o dia já prontos para começarmos a nossa verdadeira viagem – A viagem a cavalo pelo RajastãoEstava ali para isso

Fomos em diversos carros para o estábulo nas proximidades do forte. Ali, Bonnie mantém os garanhões para reprodução e as éguas utilizadas nas cavalgadas. 

A estrutura é bem montada e logo vimos o porquê da fama desses cavalos. Um a um eles eram conduzidos por funcionários para o meio da arena. Tinham a lista com nossos nomes e os das éguas que haviam sido escolhidas de acordo com as características e perfis de cada um. Etiquetas eram colocadas com seus nomes para que pudéssemos identificá-las e com nossos nomes para que eles pudessem também nos identificar. 

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Os cavalos eram de tamanho médio, longilíneos, esguios e delgados. Sua movimentação não deixava dúvidas que havia muita energia a ser colocada para fora e que eles não podiam esperar por isso. 

Olhei um a um na tentativa de descobrir qual seria o meu. Nessa tentativa, deparei-me com a sela! Não poderia ser mais clean! Sem nenhum adereço, artefato e excessos. A sola de couro já polida brilhava na luz do sol. Era só isso! Uma sola sem nenhum tipo de acolchoado. Comecei a pensar que iria me dá mal. Afinal, estava apenas começando meus nove dias de viagem a cavalo pelo Rajastão. Seria naquela sela que eu iria percorrer velozmente 260 quilômetros de trilhas.

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Um a um ouvíamos nossos nomes e éramos apresentados aos nossos cavalos, na verdade, éguas. Os garanhões eram reservados para cobertura, exportação, e claro, para o Bonnie.

Fui apresentado a Sônia, minha égua. Subi num degrau de madeira um tanto apreensiva, não tenho como menti. Sônia estava extremamente agitada, e eu teria que ser muito rápida em passar a perna e me firmar na sela. Não teria duas chances. E foi assim! Ao passar a perna, ela saiu quicando e tive muita dificuldade em colocar meu pé no estribo que ainda não estava ajustado. Ao meu lado seguia um indiano que tentava controlar a égua para poder ajustar o estribo. Ajustou o estribo muito rapidamente, e Sônia saiu coiceando e refugando quando a colocava próxima aos outros. Descobri muito rapidamente que havia uma fita vermelha amarrada na sua cauda, e não só na dela, mas em alguns outros. 

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Preferi deixa-la quieta e a parte do resto do grupo. E após todos estarem em cima de seus cavalos, aguardamos Bonnie dá a ordem de partir, e seguir a frente do grupo com um ar imperial. Atrás seguíamos nós, dois guias montados, e logo atrás e muitas vezes a nossa frente, três pessoas em cima de um Jeep antigo em cores militares e bandeira de Dundlod servindo de apoio.

Seguimos por uma estrada empoeirada que deixava a vila e rumava em direção aos mistérios e belezas do Rajastão. Era o que o meu roteiro prometia e eu estava pronta para seguir a cavalo essa trilha de maravilhosas promessas.

Em pouco tempo percebi que Sônia iria me dá trabalho e que eu deveria reforçar a minha atenção e dedicar algum tempo a encontrar o jeito e forma de lidar com ela. Desde os primeiros minutos saiu coiceando, trotando lateralizada e se espantando com todo papel, moita e afins que encontrávamos pelo caminho. Ficar junto de alguém, nem pensar! Permitir a aproximação de outros por trás, de forma alguma. Comecei a perceber seus movimentos de orelhas extremamente expressivos. Giravam em toda a direção, juntas e de forma independente, com uma atividade que impressionava. Mas o principal era que quando colocava as duas para trás simultaneamente, tacava um coice gigante. Por mais que avisasse aos meus companheiros de viagem que Sônia coiceava, eles com frequência esqueciam. Isso me colocava numa situação desconfortável de ter de me preocupar para que as pessoas não fossem machucadas por Sônia, e também por não me colocar em risco a medida que muitas vezes durante galopes muito rápidos o fato dela coicear me desestabilizava. Resultado – posicionei-me na retaguarda do grupo, junto aos guias, na tentativa de me manter segura e não ter de ficar atenta aos outros durante toda a cavalgada. 

Ficar na retaguarda do grupo fez eu ficar atenta especificamente ao desenvolvimento das minhas habilidades, tentar encontrar o tipo de andamento e adaptar-me a ele e observar todo o grupo a frente. Pude ao galope escolher as áreas abertas para lançar-me com a minha égua num galope livre.

Esse foi apenas o começo de uma viagem de descobertas e desenvolvimento pessoal junto com a minha parceira que iria me proporcionar uma infinidade de desafios a serem encarados.

– Ao fim de um dia cheio de ansiedade e novidades, deixamos nossos cavalos num campo próximo a uma vila. De lá, fomos transportados de carro para o lugar onde iríamos passar a noite.

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Como é costume, o forte fica no meio de uma vila, e para chegar nele passamos por ruas e vielas até nos depararmos com uma construção que apesar de carecer de uma manutenção, conservava o seu esplendor e magnificência do passado. 

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Esse não seria o único, apenas o primeiro, dos tão surpreendentes palácios escondidos, onde, por vez ou outra iríamos nos hospedar. 

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Em alguns lugares a ermo, os acampamentos substituíam os palácios, e praticamente funcionavam como um. Os lugares foram escolhidos a dedo e a infraestrutura não deixava que faltasse nada de conforto que você pudesse desejar.

Tendas grandes individuais ou duplas eram dispostas em semicírculo. Por trás delas, estruturas de banheiros e sanitários com água quente para o banho. Dentro das tendas, catres com boa cobertura colchoada, tapete, criado mudo, espelho e toalhas limpas. 

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Uma estrutura grande com mais de vinte e cinco pessoas eram responsáveis por montar e desmontar acampamento, incluindo, tendas, banheiros, cozinha e suporte e alimento para os cavalos. Caminhões e carros menores faziam parte dessa estrutura auxiliar. 

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Apesar de não ser vegetariana, a comida do acampamento era muito saborosa, tanto nas refeições principais quanto nas paradas para descanso no meio do dia. 

Tinha um personagem chamado Vikran que fazia parte do meu dia a dia. Devia ter uns 16 anos que transpareciam na sua vivacidade e energia. Ajudava nas refeições e no Jeep de suporte. Típico indiano, com pele escura, olhos negros e dentes muito claros que se mostravam em um grande sorriso que dava todas as vezes que eu o cumprimentava chamando-o pelo nome. E foi assim, através de um olho no olho tão raro na Índia de castas tão rígidas, que desenvolvi uma relação de afetividade com Vikran. Ele retribuía me servindo primeiro as refeições, me atendendo apenas a um olhar e levando de tudo para que eu repetisse. E quando eu dizia que estava satisfeita, ele me pedia em tom de brincadeira – “One more”, “one more”. 

Nossas refeições de começo e final do dia eram feitas em mesas e cadeiras em torno do fogo. Essa época da minha viagem era inverno e o frio pela manhã e noite era de uma intensidade razoável. 

-Entre um palácio e outro, fortes, ruínas anciãs, passávamos por vilas e mais vilas de pessoas que viviam de uma agricultura de subsistência e do pastoreio de cabras. Já que as vacas são sagradas, vagavam por todos os cantos sem serem perturbadas ou utilizadas para qualquer tipo de trabalho. O trabalho sobrava para os búfalos e camelos que suportavam cargas de todos os tipos auxiliando o povo no seu dia a dia.

Chamava a atenção o solo nu, seco e coberto por garranchos. Aqui e ali, arvores de copas verdes que davam um alento de sombra e serviam de alimento para as cabras que por ali eram pastoreadas. 

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Não podíamos deixar focar nossa atenção nas figuras que cruzavam nossos caminhos. Mulheres com seus vestidos longos coloridos e com fios dourados, não iam para nenhuma festa, trabalhavam no campo, em trabalho pesado. Ora lavando roupa, cozinhando, ou coletando esterco para colocar para secar para servir de combustível.

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Os homens? Bem, os homens sentavam a porta de suas casas, muitas vezes com outros, fumavam, e vendiam alguns produtos na beira das calçadas.

A festa e alegria das vilas ficavam por conta das crianças que ao avistar nossos cavalos, corriam num frenesi e gritavam palavras que se alternavam entre um “hola, hola” e um “Bye Bye”. Dos quintais, as ruas, portas e janelas e telhados surgiam crianças por todos os lados. E posso dizer que foi uma das imagens mais marcantes dessa viagem.

 – Nossos dias foram marcados por cenas e cenários surpreendentes. Entre um povoado e outro, campos abertos entremeados por cercas vivas que delimitavam a posse de cada família.

Passamos por planícies, colinas e um imenso salar. Vimos arquitetura antiga da região que na maioria das vezes se apresentava em situação de ruína. 

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– Os cavalos não poderiam ter melhor terreno para demonstrar o prazer em galopar livremente. Saiam em disparada ao menor sinal de permissão. Sônia dançava sobre os cascos ao ser controlada na retaguarda e, só apenas quando a distância mostrava-se suficiente, eu a liberava para sem obstáculos cruzar o espaço e o tempo com todo seu potencial, como se não houvesse amanhã.

Na maioria das vezes, ao sinal de parar, eu tinha de fazer uma curva de volta ao me ver ultrapassando todos ainda em velocidade de cruzeiro sem que Sônia sentisse o menor efeito do meu esforço em rédeas para pará-la.

E assim foi por 260 quilômetros da viagem através do Rajastão. Minha égua, Sônia, seguiu comigo, em galope pleno, sem dia de descanso, e ao fim desse caminho parecia pronta para fazê-lo novamente. 

– O grupo de pessoas tão diversas se uniam pelo prazer em ter em comum os mesmos interesses e experiências em torno do universo das atividades equestres. Claro que num grupo de 14 pessoas a afinidade difere de uma para outra. E problemas também acontecem. De uma forma geral, fiz alguns contatos que irão permanecer e outros que deixarão de existir ao final dessa cavalgada. Não foi o melhor grupo, nem o pior.

Foi com esse grupo que passei o Natal, festa de Ano Novo e adentrei o ano de 2015. Dia três de janeiro, me despedi deles para tomar parte de um tour privado que me levaria ao lendário Taj, em Agra e depois Delhi. E foi durante essa curta jornada que revivi os momentos que passei e pude passar o dia do aniversário de minha mãe em profunda consciência de mim mesma e minha dor. 

– Dezembro tinha cronologicamente acabado, mas seguiu por janeiro sem parada nem aviso, até eu me encontrar de volta em São Paulo, depois de uma jornada de 24 horas entre voos desde Delhi.

 Parei em São Paulo por apenas um dia e segui para Argentina, mais precisamente, Bariloche, Patagônia, onde minha amiga Tammy vive e opera cavalgadas juntamente com seu marido e parceiro Dommy, através de sua operadora Andesluna. 

– Cheguei em Bariloche e fui muito bem acolhida. Como todas as vezes que encontro Tammy, senti que encontrava uma irmã e que estava em casa.

 Durante os poucos dias que restavam para começar a atividade com um novo grupo, pudemos comer, beber e comemorar o reencontro com um bom cordeiro, vinho e caipirinha. E nesse meio tempo, organizar e terminar todos os preparativos e logística. 

– O grupo que seguiria através do programa da Grande Travessia pelos Andes entre argentina e Chile era originário de uma operadora inglesa de viagens de bicicleta que através de uma operadora chilena viria pela primeira vez fazer a travessia tradicional a cavalo, agora de bicicleta. Iriam testar o itinerário para poder logo em seguida vende-lo. E nessa primeira viagem, como é muito comum, acompanhavam os donos os seus mais fiéis e experientes clientes, que pagavam para ter a oportunidade de serem os primeiros a fazer esse roteiro.

 Tammy foi contratada para fazer toda a logística e apoio do trajeto, incluindo acampamento, comida, transporte de equipamento e muitas vezes o serviço de guia pela região da cordilheira. E era isso que eu iria fazer junto com ela e sua equipe que incluía Dommy, Flor e os balqueanos. 

– Chegou o dia de partir, e eu não escondia a minha ansiedade. Depois de dez dias a cavalo pela Índia, não suportava os dias parados em Bariloche sem a rotina diária a cavalo. 

Foto: Jacira Omena

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Carregamos o carro e partimos para encontrar o grupo de ciclistas onde estavam hospedados, para dali seguir para o ponto onde estavam nossos cavalos. Chegaríamos primeiro que eles para organizarmos o despacho da carga para o nosso primeiro ponto de dormida, casa de campo de Tammy e Dommy, não tão distante. O primeiro dia era para uma adaptação tranquila, uma excelente refeição e dormida confortável. 

– O grupo de ciclistas era formado por ingleses com a faixa etária em torno de cinquenta anos e com nenhum perfil de atleta. Olhei para eles com um ar de incredulidade, medindo suas circunferências de coxa e pernas tentando descobri de onde sairia a força para encarar a dureza do caminho que eu sabia que teríamos pela frente. Já havia feito esse roteiro a cavalo quatro anos atrás. Desde já, posso afirmar que as aparências enganam, e que julgamentos precipitados devem nos fazer pensar em não tê-los em definitivo. 

– Foi uma noite agradabilíssima em La Costa! Grupo feliz com o primeiro esforço na trilha, com cenário incrível. Gin tônica e vinho ladeavam uma comidinha enquanto esperávamos o cordeiro, ator principal, que estava na brasa.

Depois de um dia perfeito cada um tomou seu lugar para dormir. O grupo se espalhou pela casa principal e bangalôs de hóspedes, e o staff pelo galpão, cada um com seu saco de dormir. Eu escolhi a varanda da casa principal. Dommy ajudou-me a fazer o meu canto protegendo-o do vento e dos cachorros que nos acompanhavam. A noite estava linda e, na verdade, eu aguardava o amanhecer. Uma sensação de liberdade me dava a paz que sempre busco. De nada adiantou a barricada, os cachorros a pularam e logo os senti ao meu lado, atrás de um lugar quentinho para passar a noite. 

– De La Costa partimos para a região de pré cordilheira e cordilheira propriamente dita. A partir dali não haveria mais carro de suporte, eletricidade e cama confortável. Toda carga de equipamento, bagagem, comida e acampamento seriam carregadas em cavalos “pincheros” levados pelos baqueanos e Flor. Dommy, Tammy e eu iriamos acompanhando o grupo, dando suporte e guiando-os pela trilha.

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Foto: Jacira Omena

O caminho não era fácil, e eu, a cada subida e terreno difícil, achava que havia feito uma grande escolha em ter o cavalo como meu companheiro e veículo de aventura, em vez da bicicleta. Via a dificuldade de cada passagem, muitas vezes havia a necessidade de empurrar a bicicleta ou coloca-la sobre os ombros para subir uma trilha ou ultrapassar os cursos d´água. 

Foto: Jacira Omena

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Minha admiração por aquelas pessoas crescia a medida que avançávamos, e ficava muito claro a capacidade de motivação de cada um. Não era apenas capacidade física, mas muito de esforço mental associado a experiência de cada um em lidar com as suas próprias dificuldades em transpor os obstáculos.

E foi assim, que depois de trilhar um cenário deslumbrante tanto para os ciclistas como para nós que seguíamos a cavalo, chegamos ao acampamento, onde encontramos o pessoal que tinha se adiantado com a carga para instalar o acampamento.

Acampamos a beira de um córrego em meio a um bosque. E passamos a nossa primeira noite de acampamento em lugar que não deixava nada a dever em termos de beleza, os lugares que havíamos percorrido durante o dia.

Foto: Jacira Omena

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– Os dias seguintes na Argentina seria de uma sucessão de paisagens lindas e encantamento e, claro, de dificuldades nas trilhas, muito mais para os ciclistas que para nós que estávamos a cavalo.

Os cavalos crioulos já acostumados com o terreno, ultrapassavam com segurança e tranquilidade cada trecho da trilha.

Mesmo ao meio do cansaço e esforço hercúleo, os participantes dessa jornada não deixavam de se encantar e se surpreender com a grandiosidade da natureza em volta. A cada olhada para trás, mais ficavam admirados pelo caminho que haviam deixado para trás. 

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– Depois de alguns dias na Argentina, em acampamentos, iríamos atravessar a fronteira com o Chile pelo lago Puelo, não sem antes dormir uma noite em El Bolson.

Pela manhã nos encaminhamos para a aduana, para fazer a migração e tomar um barco rápido com o qual atravessaríamos os dois lagos Puelo e Inferior em direção aos carabineiros chilenos muito próximos ao lago Rocas onde ficava o nosso destino final, Isla Bandúrrias.

Fui no primeiro barco com Tammy juntamente com as bagagens para adiantar o transporte delas para a ilha. Enquanto isso, os ciclistas juntamente com suas bicicletas tomaram outro barco que os levariam ao início de outra trilha no lado chileno.

A travessia dos lagos naquele dia foi difícil. Ventava muito e o barco parecia cavalo bravo ao bater nas ondas num movimento de subida seguida por descidas secas.

Foi com muito alívio que chegamos aos carabineiros e logo depois encontramos Miguel que nos levaria direto para Bandúrrias. 

Foto: Jacira Omena

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Mais prazer ainda foi encontrar depois de quatro anos Cathy e Françoise.

A ilha continuava do jeito que me lembrava da primeira e última vez que lá estive há quatro anos atrás quando fiz pela primeira vez a cavalo a Grande Travessia.

Todos estavam trabalhando e organizando tudo para receber o grupo que chegaria mais tarde após um percurso já no Chile.

Depois de me acomodar numa tenda montada mais acima da casa de hóspede, juntei-me a eles para ajudar em alguma coisa e também fotografar.

Cathy havia preparado um espaço ao lado da casa de hóspede onde iria ser feito um cordeiro na forma tradicional Patagônica. Salvador já estava lidando com ele e o preparo do fogo. Dois belos cordeiros do campo de Cathy, La Colina, já estavam esticados nos espetos, prontos para serem assados em fogo em brasa, vagarosamente. 

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A reação dos ciclistas quando ali chegaram foi gratificante. Não podiam acreditar que aquela ilha existia. E depois de um dia duro, foram recebidos como que no paraíso, com uma excelente comida e uma acolhida perfeita. 

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– Ainda permaneci com o apoio dos ciclistas por mais um dia. Depois, seguiram com guias chilenos da operadora de bicicletas. 

Tammy e eu, juntamente com Cathy ficamos por mais um dia na ilha com Françoise, para depois continuarmos por La Colina e em seguida Puerto Mont, onde Cathy vive.

Teríamos uns dias que seriam usados para colocar a conversa em dia e organizar as coisas para um novo grupo que chegaria para seguir por um circuito a cavalo dentro do Chile. 

– Durante alguns dias de janeiro fiquei entre Puerto Montt e Isla Bandúrrias. Nesse período, descansei, trabalhei, troquei idéias, e fiquei a toa com os meus pensamentos.

Foi nos meus últimos dias no Chile, mais precisamente na Isla Bandúrrias, que comecei a colocar os meus pensamentos e sentimentos em ordem para poder voltar para casa. 

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Lá, eu fiquei com Françoise, mãe de Cathy, seus gatos e as vezes Luque, sua vizinha do outro lado do lago. Com pouco ou quase nada para fazer, dividia meu tempo em ajudar Françóise, tomar banho de lago, andar pela ilha, cozinhar alguma coisa e dormir. Mas, o mais gostoso era conversar e tomar café sentada na mesa ao lado da cozinha.

Agradeço a oportunidade de ter tido esse tempo para mim. 

– Depois de mais de vinte dias entre Argentina e Chile, voltei para a minha casa, já no mês de janeiro, achando que dezembro ainda não havia acabado.

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Sobre o Autor

Jacira Omena
Jacira Omena 199 posts

Viajante e Escritora - Escreveu o Livro - Viajar a Cavalo:Um Guia Passo a Passo. "Viajo pelo mundo a cavalo sempre a procura de algo novo e surpreendente, e com grande frequência sou bem-sucedida nessa busca!

*O conteúdo dessa matéria é de inteira responsabilidade do seu autor, não tendo a Viajar a Cavalo qualquer responsabilidade sobre o teor dessas informações.

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