O “Horsemanship” é um caminho para bem-estar animal

O “Horsemanship” é um caminho para bem-estar animal

Por José Luiz Jorge

Cresce em todos os países, no chamado “Mundo do Cavalo”, uma preocupação com mudanças de técnicas de manejo, de práticas na escolarização de potros, de atitudes no trabalho montado, que reduzam ou eliminem dor e sofrimento dos cavalos na sua relação conosco.

Como ocorre em outras áreas, seja alimentação ou saúde, por exemplo, os profissionais do Cavalo e criadores precisam aprofundar a “leitura” do cavalo no trabalho e no dia-a-dia, para saber identificar fatores de estresse, mudanças de comportamento causadas por dores ou excessos, e poder separar o que de fato é importante, dos chamados modismos.

E isso porque em nome do cuidado com o bem-estar, tem muita gente fazendo apenas “marketing”, falando e escrevendo como se fossem autoridades nesses assuntos, mas sem a vivência, sem a prática que na verdade é a nossa grande escola.

E nessa linha podemos propor aqui que criadores, veterinários, ferrageadores, ginetes troquem ideias sobre o que faz sentido na defesa do bem-estar do cavalo, separando o joio do trigo.

O uso de violência excessiva ou injustificada, mais do que afrontar o Cavalo é contraproducente porque cavalos com medo, trabalham mal e se tornam extremamente defensivos;

Uso abusivo de esporas, inclusive as pontiagudas, já hoje restritas em pista, uma vez que cavalos com sangue não prosseguem em provas de diversas modalidades;

Mal-uso de embocaduras agressivas, tirar a boca do cavalo, com cordas ou correntes, resistência a compreender que melhorando a qualidade da equitação, reduzimos a importância dada ao uso de ferro na boca do cavalo;

Uso de expedientes em treinos como fazem no hipismo clássico, com uma pessoa escondida atrás do obstáculo dando varadas no cavalo para ele no susto saltar mais, ou mesmo aplicação de choque elétrico nos obstáculos;

Confinar os cavalos em baias muito pequenas que impedem o Cavalo de ter o merecido descanso;

Descuidar da higiene e sanidade do ambiente em que eles ficam a maior parte do tempo;

Uso de arreios, selas, verdadeiras tralhas que judiam do lombo dos animais;

Abusar de peias, cabrestos de corrente, do uso de pitos ou cachimbos, o que reforça negativamente o comportamento defensivo dos cavalos em relação a nós;

Descuidar da oferta de água fresca a vontade, da higiene dos bebedouros, que resultam em desidratação, doenças contagiosas, e mesmo cólica por fermentação, quando a água está azeda com restos de capim, ração, etc.;

Uso abusivo de substâncias químicas, capazes de alterar desempenho, crescimento, mascarar dores, com graves consequências sobre fígado, rins, e articulações de bons cavalos;

Bom, sem muito esforço, pude citar dez temas polêmicos, que ainda se manifestam em centenas ou milhares de criatórios, centros hípicos, haras e fazendas por todo Brasil e que merecem um olhar sensato e firme das Associações, dos criadores, e de quem vive do e para o Cavalo.

A questão é: porque considera-se necessário o uso dessas práticas até os dias de hoje? Há quem diga, “porque sempre foi feito assim”.

E essa não é bem a história completa.

Há 2500 anos antes de Cristo, na Grécia antiga, um general da Cavalaria, de nome, Xenofontes, escreveu um tratado chamado “ A Arte do Horsemanship”, que era um autêntico compêndio sobre a relação entre Homem e Cavalo, com o foco no cavalo e comprometido com o bem-estar deles, porque mais do que armas de guerra, o Cavalo, leal, motivado, profundamente vinculado ao guerreiro, em um campo de batalha faria toda a diferença.

Ele, naquele tempo, já sabia que os cavalos sentem, tomam decisões, tem uma memória intensa, e sabem reconhecer quem os protege como um alfa e quem os agride gratuitamente.

Em qualquer criatório que tenha alguém que haja deste ou daquele modo, veremos os cavalos reagindo favorável ou negativamente ante a presença de cada uma das pessoas que por lá atuam.

O que mudou de umas duas décadas para cá? O conhecimento. Sim, hoje podemos dizer cientificamente que sabemos muito mais sobre comportamento e sobre a natureza do Cavalo do que há 100 ou 200 anos atrás.

Mas, por exemplo, as Faculdades de Veterinária parecem não saber disso, e dedicam dez vezes mais aulas sobre técnicas de contenção, a maioria baseada em dor, do que em aulas sobre Etologia, a ciência que estuda o comportamento animal.

Eu, sempre que convidado, nos últimos anos, compareci a diversas Semanas Acadêmicas, para falar sobre Horsemanship, Imprinting de potros e manejo baseado em Bem-estar e fico sempre surpreso, porque centenas de estudantes nesses auditórios ou em dias de campo, comigo, parecem estar ouvindo e vendo isso pela primeira vez.

Então para finalizar esse primeiro texto, recorro a ensinamentos simples, de clássicos do Horsemanship, que são referenciais para meu trabalho, verdadeiros cowboys que dedicaram toda a vida, (um deles – vivo e entre nós, que é Buck Branamann) ao aumento da nossa compreensão sobre esses seres especiais e únicos, que são os cavalos. Os demais, Ray Hunt, e os irmãos Tom e Bill Dorrance tem sua história, vivências e compromisso com o Cavalo, mantidos vivos pelo trabalho de suas Fundações.

“ Aprenda a pensar do ponto de vista do Cavalo, para poder compreender sua linguagem. Nunca perca o controle de si mesmo”. (Ray Hunt)

“ Quando o processo é o aprendizado, e não um processo que causa apreensão e desconfiança, onde o medo seja a tônica, os resultados não demoram a aparecer”. (Tom Dorrance);

“O cavalo primeiro tem de desenvolver a confiança no ambiente, depois, nele mesmo e só depois no seu cavaleiro”. (Tom Dorrance)

“Algumas vezes, quando termino um trabalho e o Cavalo está mais quente e suado do que o normal, gosto de ficar com ele, ajudando-o a compreender que tudo aquilo é um assunto que vamos ter de conviver, e gosto de deixar ele explorar um pouco mais o que ocorreu”. (Tom Dorrance).

“Existem muitas coisas que, acidentalmente, podem acontecer ao seu cavalo, mas, se ele for dócil e confiar em você como amigo, ele vai permitir que você o ajude a sair daquela encrenca, em vez de perceber você como a causa daquela encrenca”. (Buck Brannaman).

“Tenho uma empatia para cavalos que são problemáticos e com medo. Algumas pessoas ficam com raiva de seus cavalos, mas eu sei o que eles [os cavalos] estão sentindo. Mas você não pode simplesmente sentir pena de um e renunciar a seu papel como um líder e um professor”. (Buck Brannaman).

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