Peregrinação a Cavalo

Peregrinação a Cavalo

Fonte: Google Maps

 

Por Fernando Corradi*

 

Diário de uma Peregrinação a Cavalo

De Pompéia ao Santuário de Santo Expedito (SP)

Há algum tempo atrás estive no Santuário de Santo Expedito (SP), e lá fiz uma promessa, a mesma que motivaria uma viagem diferente e especial na minha vida. Prometi que se o pedido que ali fiz fosse alcançado, eu iria da minha casa, em Pompéia (SP), até o Santuário montado em um cavalo, sem dinheiro, sem comida, sem preparar o trajeto e os locais de pouso e tudo que cercaria essa aventura que gosto de chamar de Peregrinação.

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O pedido foi alcançado e a promessa tinha que ser cumprida!

E assim começa nossa viagem.

Escolha dos animais.

Até a véspera da viagem, ainda não tinha decidido com quais animais eu iria. Tinha algumas opções, mas decidi, um dia antes, que iria com Thor e Serrana.

Traia.

Toda a traia foi prepara na semana que antecedeu a partida. Levei várias coisas, entre elas uma barraca, lamparina, roupas, colchonete e etc.

Foto: Cedida pelo autor.

Foto: Cedida pelo autor.

Primeiro Dia

Saímos as 8:00 da manhã da Escola do Cavalo**. Iniciei montado no Thor, e a mula Serrana seguiu puxada levando a traia. Nessa parte da estrada fomos margeando a rodovia SP-294 e em todo trecho fui comendo manga colhida nos vários pés que encontrei pelo caminho e, sendo a fruta da época, foi meu almoço no primeiro dia.

Cheguei em Herculândia na hora do almoço, e lá descansei por uma hora. Após o descanso, ajeitei a traia e iniciei a segunda etapa do primeiro dia montado na Serrana. Tocamos até próximo a cidade, Tupã. A meta seria chegar até Tupã. Porém, como os animais estavam bem cansados, tive que providenciar um local seguro para passar a noite. Nessa busca, avistei um sítio, e lá pedi pouso, mas o proprietário pediu desculpas e disse que eu não poderia passar a noite ali, então, agradeci, compreendi a atitude dele e sai meio preocupado, pois depois de andar quase 40 km, os animais já estavam muito cansados.

Voltando a estrada, e pensando onde iria dormir, uma surpresa, um carro veio ao meu encontro, era o dono do sitio que veio pedir pra eu voltar e dormir na propriedade dele. Confesso que nesse momento chorei de alegria e agradeci muito a Deus por ter me aberto as portas. Lá, fui muito bem tratado, deram-me pouso, banho, alimentação e lugar para dormir em segurança.

Foto: Cedida pelo autor.

Foto: Cedida pelo autor.

Segundo Dia

Acordei as 4:30 da madrugada com intenção de aproveitar o máximo possível a ausência do sol. Tomei o café da manhã, preparei os animais e iniciei o segundo dia de viagem. Tocamos até Tupã e de lá pegamos uma estrada vicinal de cerca de 20 km que chegava em Bastos. Foi sem dúvida o pior trecho da viagem. Não havia acostamento e tive que seguir pela lateral da pista de asfalto. No meio do caminho, um carro desviou de mim muito em cima, e o outro carro que vinha na sequência bateu no carro da frente. Muito medo naquele momento, mas os motoristas viram que a culpa foi deles, e assim, segui viagem em ritmo mais acelerado para sair logo daquela situação.

Foto: Cedida pelo autor.

Foto: Cedida pelo autor.

Por volta das 12:00 cheguei em Bastos, e parei para dar água para os animais no C.T. Claudio Inácio, única parada em um local conhecido. Lá, ofereceram almoço, mas por ser um domingo, casa cheia de parentes, fiquei sem jeito e não aceitei, e parti seguindo rumo a Sagres, cidade em que passaria a segunda noite. Por volta de 13:30 horas, com fome e sem lugar para pedir comida, tive uma outra boa surpresa, Cláudio veio em sua caminhonete trazer uma marmita com comida para mim.

Depois do almoço, toquei adiante, agora já em estrada de terra rumo a cidade de Sagres. Os animais muito cansados, mas a mula Serrana bem mais abatida que o Thor. Cheguei em Sagres no meio de uma ventania. Assustados e sem saber onde ir ou com quem falar, a confiança que tenho em Deus foi a força para continuar.

Vi uns piquetes bons e imaginei que seria ótimo, pois os cavalos precisavam se alimentar melhor. Pedi ao dono e ele não deixou. Segui pela cidade e fui até um casebre bem simples onde o morador tinha uma chácara e alguns piquetes, cheguei e pedi pouso para os animais e para mim, e fui recebido de braços abertos. Aquela casa simples se tornou um palácio pra mim naquele momento. Soltei os animais e percebi que ambos estavam começando a ter machucados.

Fiquei conversando com o dono da casa sentado na calçada, e foi muito legal, pois as pessoas da pequena cidade vieram me conhecer e saber da minha história e sobre o que eu estava fazendo. Ali, conheci pessoas, estórias e corações bons.

Literalmente eu desmaiei, e só acordei no outro dia as 6:00 da manhã.

Foto: Cedida pelo autor.

Foto: Cedida pelo autor.

Terceiro Dia

Depois de fazer e tomar meu café, preparei os animais e toquei rumo a uma cidade chamada Ouro Branco. Nesse dia, quando ia saindo da cidade, um dos amigos que fiz na cidade veio ao meu encontro e me entregou um pacote de bolacha para eu levar na viagem, seria o meu almoço naquele dia.

Toquei para a cidade de Praçinha, onde cheguei na hora do almoço em uma fazenda bem na saída da cidade, e lá dei água aos animais e descansei um pouco. Percebi que a mula Serrana estava muito machucada e cansada e, para não atrasar a viagem, decidi deixar ela nessa fazenda.

Mas, sem ela, parte da traia ficou para trás, peguei apenas o necessário e segui meio perdido sem saber ao certo onde estava indo. Pelas informações que recebi, cheguei até uma estrada asfaltada particular da usina Alto alegre e nela andei por 20km sem encontrar nenhum carro ou pessoa, apenas cana, sol, eu e meu cavalo. Subidas e decidas intermináveis que me levaram até Ouro Branco.

Iria dormir ali, mas alguns moradores me incentivaram a chegar no distrito de Eneida que estaria mais perto de santo Expedito. Porém, para chegar em Eneida, eu teria que ir até a usina e tentar passar pelo meio dela. Resolvi arriscar, e fui.

Depois de 8 km, cheguei até a usina, e quando pergunto na portaria se poderia passar, o porteiro diz que não. Foi um momento de muita tensão, pois não tinha como voltar. Ambos, eu e Thor estávamos muito cansados. Depois de meia hora, e após muitos pedidos, um homem de bom coração me deixou passar. Quando atravessei a usina faltavam alguns quilômetros para chegar onde eu iria pousar e, o tempo começou a mudar para chuva, e chuva forte. Trovões, raios e ventania forte começaram a me assustar. Apertei o ritmo colocando o Thor no trote, mas a cidade não chegava. Avistei um carro no meio da plantação de cana, parei e perguntei se estava longe da cidade. O homem me disse que faltavam 2km, e que eu deveria ir mais rápido pois uma tempestade estava a caminho. Naquele momento, coloquei meu cavalo a galope, e depois de mais de 50km, andando o dia todo sem parar, ele galopou como um guerreiro para chegar até a cidade. Ao chegar o homem que havia encontrado na estrada veio ao meu encontro querendo saber o que eu estava fazendo ali. Contei a história para ele e na hora ele ligou para um amigo que me abrigou e arrumou pouso para meu cavalo, Ali jantei e dormi.

Faltavam 17km para o meu destino. Seria o último dia.

Quarto Dia

Último dia, o mais emocionante e difícil também.

Meu companheiro, Thor, estava muito machucado. Quando fui selar meu cavalo fiquei com o coração cortado. Seu dorso, lombo e cernelha estavam inchados, e colocar a sela foi muito duro para mim, mas não vi outro jeito. Bem, saímos rumo a nossa chegada, dos 17km que faltavam, fui puxando 10km e, montei apenas os últimos 7km pois, Thor não estava mais aguentando.

E as 11:30 do quarto dia, depois de 178km, cheguei ao Santuário de Santo Expedito (SP) com muita alegria e com sentimento de dever cumprido. A minha espera estavam minha esposa Rita, meus filhos Pedro e Luisa e meu pai Osvaldo.

Foto: Cedida pelo autor.

Foto: Cedida pelo autor.

Voltamos após o almoço, agora, com nosso trailer, refazendo o caminho que fiz, para eles conhecerem, pegamos a nossa mula Serrana e, após 5 horas de estrada chegamos em casa.

Depois dessa Peregrinação, apenas contando com a mão de Deus e amizade dos homens, chego à conclusão que foi maravilhoso. Vivenciei pessoas de coração bom, lugares maravilhosos, sentimentos inexplicáveis de superação e fé; vivi um dia de cada vez, vivendo o momento e confiando que o de amanhã seria melhor que o anterior. Percebi a reação de surpresa das pessoas ao saber da Peregrinação, a natureza rodeando os meus passos e escoltando meus desejos, e recebi as palavras de incentivo.

Um sentimento de dever cumprido e de gratidão a eles, meus animais Thor e Serrana, que com muita garra e valentia, ajudaram-me a chegar ao meu destino.


FICHA TÉCNICA:

Cavaleiro – Fernando Galhardo Corradi, Engenheiro civil.

Animais –Thor, cavalo Appaloosa, PO, de 11 anos Serrana, uma mula de 12 anos.

Trajeto – Pompéia (SP) a Santo Expedito (SP) – 178 km.

Período – 03 a 06 de janeiro de 2015.


Fernando Galhardo Corradi*

Engenheiro civil, residente em Pompéia (SP)

Proprietário da Escola do Cavalo**

**Centro Equestre na cidade de Pompéia, interior de São Paulo.

Contato – FACEBOOK: https://www.facebook.com/HarasMundoNovo?fref=ts

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