Treinando Cavalos para Cavalgadas

Treinando Cavalos para Cavalgadas

Foto: Cedida por Mozart Brandão Barros.
 

 

Por Mozart Brandão Barros*

 

“Se o cavalo é de corrida, treinar correndo; se  é de cavalgar, treinar cavalgando”.

 

Quem leu meu texto “Treinamento de cavalo de corrida”, publicado recentemente deve ter percebido o quanto é preponderante as qualidades físicas de força, potência e, sobretudo velocidade nos treinamentos dos cavalos de corrida.  Bem distinto é o treinamento dos cavalos de cavalgadas e enduros. Naqueles, grande parte do treinamento é anaeróbico. (O cavalo trabalha em déficit de oxigênio). No treinamento de cavalos de cavalgadas, o trabalho maior é em equilíbrio de consumo de oxigênio. (Aeróbico). Busca-se desenvolver no animal a resistência muscular localizada (membros e garupa) e a resistência cardiovascular e pulmonar. Quase nada de potência e velocidade são trabalhados. Já a força, de 10% a 30% do total do volume de treinamento, variando de acordo com a topografia da região e duração da cavalgada.

 Precisa-se também, conhecer quais as modalidades de cavalgada existentes e a velocidade de andamento a elas aplicada.

Temos a cavalgada de voltinha e desfile até 9km; de passeio, acima de 10 km, extensiva ou de viagem de 20 a 35 km ou de viagem de 25 a 50 km vários dias; a aventurosa, de meses e até anos de duração; e a de enduro.

 É obvio que para cada tipo de duração de esforço, exige-se também treinamento compatível. 

Foto: Cedida por Mozart Brandao Barros.

Foto: Cedida por Mozart Brandão Barros.

Ouvindo peões e montadores experientes, afirmaria com convicção que o cavalo montado de duas a três vezes por semana, no passo, na faixa de 45 a 60 minutos encontra-se preparado para as cavalgadas de voltinha, passeio e de desfiles, sem estreses e sem risco a saúde do animal. (Trechos de até 30 km). Porém, retirar um cavalo da baia, sem tê-lo exercitado de alguma forma há muitos dias, e montar para cavalgadas extensivas e alongadas deveria ser crime.

 Se as cavalgadas forem extensivas, aventurosas, de enduro ou seu proprietário queira desenvolver um condicionamento físico nos limites do cavalo, neste caso requer um cuidado especial na preparação, avaliação e manejo nutricional do equino. 

Busca-se no treinamento para cavalos de cavalgadas a qualidade física chamada de estamina, estamina, ou endurance, que significa a capacidade de resistência aeróbia e a capacidade de manter contrações musculares por um período de tempo prolongado. Estamina se entende também como reserva de condicionamento físico adquirido. Mesmo o cavalo sem treinamento, conserva ele um certo nível de condicionamento físico obtido.

 Um animal preparado para as duradouras e longas cavalgadas encontra-se treinado para as demais. Entretanto o cavalo que só participa de cavalgada de voltinha ou desfile, não suportaria ou sofreria desgaste comprometedor a saúde, com a demanda de esforço e consumo de energia das cavalgadas alongadas.

 Treinar seu próprio cavalo é uma experiência única e um dos projetos mais estimulantes que alguém pode levar a cabo. É fascinante interagir com o animal. Leva tempo e paciência. Mas vale viver as certezas e incertezas na relação homem versus cavalo.

 Na preparação física as variáveis são muitas; dieta, terreno, saúde, temperatura ambiente, idade, cavalo de baia ou de pastagem, raça, nível de condicionamento existente (estamina), o brio (“alma”) do cavalo, controle sanitário, o tipo de cavalgada, Etc., etc.   

Foto: Cedida por Mozart Brandão Barros.

Foto: Cedida por Mozart Brandão Barros.

Cautela: Cada cavalo é único. Sua individualidade biológica tem que ser conhecida e respeitada. Compatibilizar o trabalho físico do cavalo, descanso e sua alimentação são artifícios dos mais difíceis empiricamente de se acertar. Muito cuidado!

 Para treinar um cavalo buscando seus limites no condicionamento físico aeróbico, vejamos o que diz o Professor Médico Veterinário Dr. Leonardo R. de Lima:

 “O treinamento dos animais é fundamental para a resistência aos longos percursos. Comece sempre com pequenos trechos e aumente gradativamente à distância. Inicialmente 30 minutos de exercício ininterruptos ao trote ou marcha são suficientes. Esse programa deve ser mantido por até 2 semanas, quando então o tempo de trote ou marcha poderá ser aumentado para 1 hora até completar 1 mês. Após o primeiro mês, o treinamento pode se estender por até 2 horas, lembrando sempre que esses períodos dependem da temperatura ambiente e da topografia do terreno. No terceiro mês de treinamento períodos de 2 horas podem ser adicionados ao programa. No entanto intervalos de descanso de no mínimo 30 minutos devem ser garantidos”.

 Mário Alinoi Borges, sugere 04 fases para o treinamento físico do cavalo de alta performance:

 – Período preparatório: Base física, técnica e psicológica do animal;

Fase Específica: Transferência das valências físicas básicas para as necessidades da modalidade da competição;

Período de Competição: Pique do treinamento;

– Período de Transição: Recuperação geral do cavalo.

 Já o zootecnista Lúcio Sergio Andrade sugere para o treinamento de cavalo de cavalgada o seguinte programa:

  • Primeiro mês – trabalho em velocidade lenta, (6 a 10 km) 3 a 4 dias semanais. Velocidade: 6 km (passo lento)
  • Segundo mês – aumente a distância diária para uma média de 10 a 16 km. Velocidade pode ser aumentada para 8 a 10 km. (passo acelerado)
  • Terceiro mês – Distancia de 16 a 20 km. Velocidade 10 km.
  • Quarto mês – velocidade passa para 14 km (Marcha)
  • Quinto mês em diante – O cavalo deve começar a ser preparado para enfrentar situações em regiões montanhosas. Um ou mais quilômetros morro acima, em velocidade lenta é bem mais eficiente do que o dobro da distância em terreno plano.

 Sugiro ainda o treinamento intervalado. (Aeróbico e anaeróbico).

Consiste de trabalho de altas e baixas intensidades, em seções curtas de 10 a 15 minutos. É um treinamento mais avançado.  Exemplo: Depois de aquecer o cavalo, aplicar galope cânter, passo, galope cânter acelerado, passo, marcha, passo, cânter e passo.

 “Todo exercício que impõem fadiga momentânea deve ser seguido de outro mais simples, no qual ele se desloque sem esforço nos seus andamentos naturais”

 Nuno Coelho

Contrariando o treinamento intervalado, De Vito et al. (1995) afirma “é efetivo adotar métodos específicos de treinamento, que consistam em competições simuladas que reproduzam a mesma resposta fisiológica da prova ou competição real”.

Se o cavalo é de corrida, treinar correndo, se ele cavalga, treinar cavalgando.

 Em nossa região nordestina não dispomos de laboratórios para análise científica de níveis de condicionamento físico dos cavalos.  Então é imprescindível o tato equestre e a sensibilidade do montador para no “olho” detectar qualquer anomalia no comportamento do animal.

 Antes de conhecer como preparar e treinar um cavalo é importante saber os métodos de avaliação física.

 Apresento a seguir práticas de avaliação da condição física e clinica possível em campo. 

Foto: Cedida por Mozart Brandão Barros.

Foto: Cedida por Mozart Brandão Barros.

Taxas circulatórias: normal de 30 a 40 bpm, cavalo em repouso. Em trabalho limite extremo até 150 bpm.

 Cornelia Koller apresenta a tabela abaixo sobre ritmo cardíaco

  • REPOUSO 30 A 50
  • ANDANDO 50 – 90
  • AO TROTE 80 – 125
  •  – AO TROTE rápido 100 – 160
  • GALOPE CANTER 120 – 170
  • GALOPE pleno 160 – 200

 Taxas respiratórias: 10 a 15 em repouso. Após trabalho de 40 a 50 ciclos, no treino intervalado existe aumento considerável.

Coloração das mucosas: normal é rosada (gengivas e pálpebras) Vermelha indica baixo nível de oxigênio nos músculos. 

Prega cutânea: puxar com firmeza a pele do pescoço, o natural é voltar em até 3 segundos ao normal.

 Condição muscular: Tônus normal e sem presença de tremores.

 Fezes e urina: Com o trabalho físico pode haver ligeira alteração. Fezes secas demais, desidratação, fezes moles, pode ser estresse ou distúrbios digestivos. Urina: normal é amarelo-clara, pode escurecer um pouco após longa distância de trabalho.

 Suor leitoso, branco e espumoso indica pouca resistência física.

 Apresento o método de Alexandre Valente Selistre, tanto de treinamento do condicionamento físico do cavalo como também de manter sempre sua avaliação física.

 – A frequência cardíaca do cavalo deve estar abaixo de 15 batidas, em 15 segundos, após um descanso de 15 minutos para que se possa seguir ao próximo estágio!

 Esta é a Regra dos 15.

 – 15 pulsações em 15 segundos após 15 minutos de descanso.

 “À medida que o cavalo for alcançando este parâmetro, aumenta-se a intensidade, distância ou velocidade. Cabe salientar que o cavalo não fala, não reclama, nem diz onde está doendo, muito menos quando está exausto, portanto temos que respeitá-lo, razão, pela qual, há que se estar atento ao que ele demonstrar, temos que aprender a “sentir” o cavalo”! Alexandre Valente Selistre, criador de cavalo criolo.

 Utilizando-se deste método “regras dos 15” você estará sempre treinando e avaliando seu animal. As exigências têm que ser progressivas.  No treinamento, os músculos se fortalecem com rapidez maior que às articulações, ligamentos e tendões. Cuidado!

 Outro método de avaliação:

Processo da ABCCMM de avaliar o condicionamento físico do cavalo é, após o exercício realizado, (acima de 60 minutos de trabalho) percorrer o último quilometro em passo (velocidade 6 km), desencilhar seu cavalo e após 30 minutos de descanso verificar sua frequência cardíaca. Abaixo de 64 bpm aprovado.

 O Cavalo Himalaya, da minha propriedade, na décima etapa Caminhos do Machador, após a prova de cavalgada planilhada, acusou 44 bpm, a tolerância é de até 64 batimentos cardíaco por minuto. O cavalo apresentou a mais baixa frequência entre todos os participantes.

viajaracavalomozarttreinamentocaminhomarchador

Foto: Cedida por Mozart Brandão

Foto: Cedida por Mozart Brandão Barros.

Foto: Cedida por Mozart Brandão Barros.

Contudo Koller afirma: “não é um método exato de medir a preparação física do animal, e sim um grande indicativo”.

 Finalizando: Com a experiência matuta (minha e do meu povo sertanejo) reafirmo: cavalo montado de 2 a 3 vezes por semana, mesmo no passo livre, por uma hora ou menos, encontra-se com um bom nível de preparação física. 

Foto: Cedida por Mozart Brandão Barros.

Foto: Cedida por Mozart Brandão Barros.

Um programa adequado de treinamento para um cavalo poderá ser fatal para outro. “… Quando o animal não se encontra condicionado para participar de grandes esforços, o sistema muscular entra em colapso e poderá ser fatal ou deixar sequelas irreversíveis” Lúcio Andrade.

 Afirmo ainda, bom senso, equilíbrio e observação constante sobre qualquer alteração no comportamento do animal é um aviso, no mínimo um alerta.

 Tudo pela saúde do cavalo. Boa sorte e sucesso…

Anterior A cavalo - Pelas Praias de Alagoas
Próximo Campolina Marchador - A Raça

Sobre o Autor

*O conteúdo dessa matéria é de inteira responsabilidade do seu autor, não tendo a Viajar a Cavalo qualquer responsabilidade sobre o teor dessas informações.

Você também pode gostar de

Histórias e Tradições Leia e comente!

Antigas Tentativas de Preservação do cavalo Nordestino

Luis Cléber do cavalonordestino.blogspot.com.br envolvido com a preservação e seleção do Cavalo Nordestino conta-nos um pouco mais sobre tentativas anteriores semelhantes de encampar essa causa e que muito contribuiu para que as pessoas atualmente envolvidas tivessem por onde começar e avançar.

Nordeste – Cavalgar, com que roupa?

Proteção e liberdade na lida diária com o gado. No Nordeste, as tradições ainda permanecem na hora de se vestir para subir no cavalo.

Horsemanship Leia e comente!

Respeitar a Natureza do Cavalo e seu Direito de Usar seu Instinto de Autopreservação

E esse tripé desta filosofia de trabalho está alicerçado no conceito que chamei separador de campos: Respeitar a Natureza do Cavalo e Reconhecer o Direito do Cavalo usar sempre seu Instinto de Preservação diante de nós.

Leia e comente!

Nenhum Comentário ainda

Você pode ser o primeiro a comentar esse post!